«Eu nunca guardei rebanhos» (segundo aniversário, na companhia de Alberto Caeiro e Mário Viegas)

by manuel margarido

Este blogue faz dois anos. Uma irrelevância que começou muito opinativa, e se foi progressivamente esbatendo, quase se cingindo à divulgação do talento alheio, resultado do gosto. Muita poesia (particularmente de poetas menos conhecidos); algumas escolhas felizes; um par de autores “descoberto”; muitas tontices; bastante irregularidade; sujeição aos humores. Uma inutilidade que já esteve duas ou três vezes para acabar, a vidinha chama. Mas lá vai continuando, campo de pasto com mais ovelhas que pastor, que dele e delas pouco guarda.

Eu nunca guardei rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr de sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

E se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.


Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.


Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.


E se desejo às vezes

Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),


É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.


Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo dum outeiro,

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,

Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz

E quer fingir que compreende.


Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me vêem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predileta

Onde se sentem, lendo os meus versos.

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer cousa natural —

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.

Caeiro, Alberto, O Guardador de Rebanhos.

fac-simile de página do caderno manuscrito de «O Guardador de Rebanhos» © Biblioteca Nacional.

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