Nuno Júdice – Jogo

by manuel margarido

 


Jogo


Eu, sabendo que te amo,

e como as coisas do amor são difíceis,

preparo em silêncio a mesa

do jogo, estendo as peças

sobre o tabuleiro, disponho os lugares

necessários para que tudo

comece: as cadeiras

uma em frente da outra, embora saiba

que as mãos não se podem tocar,

e que para além das dificuldades,

hesitações, recuos

ou avanços possíveis, só os olhos

transportam, talvez, uma hipótese

de entendimento. É então que chegas,

e como se um vento do norte

entrasse por uma janela aberta,

o jogo inteiro voa pelos ares,

o frio enche-te os olhos de lágrimas,

e empurras-me para dentro, onde

o fogo consome o que resta

do nosso quebra-cabeças.

Júdice, Nuno, O Movimento do Mundo, Lisboa: Quetzal, 1997

«Lonely Queen», hermin abramovitch © hermin abramovitch, via Deviantart (D.R.)