Portugal 7 – Coreia do Norte 0 – Um jogo que eu não queria

by manuel margarido

Não queria ter visto este jogo. Recordava-me bem do que escrevi aqui, do que a Helena Matos escreveu; eu não queria que a Selecção Nacional Portuguesa de Futebol Masculino escalão Seniores (a.k.a. «Portugal») ganhasse. Não queria ter visto, deitei-me para dormir uma hora, ideia impossível, inferno das vuvuzelas, não dormi, nem vi; não queria tantos golos, estes golos têm consequências. Chol Hyok, Kim Myong Won, Kim Kyong II e Pak Sung Hyok sabem-no, desapareceram em pleno Campeonato do Mundo; consequências que escapam à nossa lógica de felicidades efémeras, de «futebóis». A tristeza é antiga, na Coreia do Norte, a tristeza de quem tem uma imensa fome de pão, tanto quanto tem fome de liberdade, de palavra, de identidade; a tristeza de quem a fome é um mal menor que o medo.

Quando vejo as fotografias de Cristiano Ronaldo para a campanha da Armani, penso que este menino passou fome, uma fome envergonhada, uma fome de isolamento, uma fome Autonomia Regional, (podia ser da «interioridade» ou dos aglomerados suburbanos;) mas teve uma oportunidade e agarrou-a com os dentes, admiro-o por isso.

Perante aqueles que não têm sequer a oportunidade de pensar em oportunidades, aqueles rapazes que hoje, vestidos  com a camisola da República Popular da Coreia, encaixaram sete golos, (gostarão de montanhas?) e têm medo, eu nem queria, mas a minha afeição ficou do lado deles.  7 a 0 com eles. Eu não queria.

RI Myong Guk; CHA Jong Hyok; RI Jun Il; PAK Nam Chol; RI Kwang Chon; KIM Kum Il; AN Chol Hyok; JI Yun Nam; JONG Tae Se; 0HONG Yong Jo; MUN In Guk; CHOE Kum Chol; PAK Chol Jin; PAK Nam Chol; KIM Yong Jun; NAM Song Chol; AN Yong Hak; KIM Myong Gil; RI Chol Myong; KIM Myong Won; RI Kwang Hyok; KIM Kyong Il; PAK Sung Hyok. Não se esqueçam destes nomes. Porque já estarão votados antecipadamente ao esquecimento, o primeiro degrau de uma escada que os levará a um inferno selado pelo segredo e esquecido pelos jornais. A Armani não se pode preocupar com estas coisas; os tablóides também não, e a PETA dedica-se-se aos animais. E eu não queria.


Sentado sozinho

com um copo na mão

contemplo

os montes distantes


Nem que chegasse

a amada

sentiria

prazer maior


Mesmo que não falem nem riam

gosto mais

das montanhas

YUN SÓN-DO, (1587-1671), Coreia, in, A Rosa do Mundo, Lisboa: Assírio e Alvim, 2001