Manuel Cintra – Tangerina

by manuel margarido

Este folheto,

edição do autor

com tiragem de 900 exemplares

e concepção gráfica de Vítor Silva Tavares,

foi composto e impresso em Dezembro de 1990

nas oficinas da Minigráfica — Cooperativa de Artes Gráficas, CRL,

Rua da Alegria, 30, nesta cidade de Lisboa

Depósito Legal N.º 42 294 / 90

Bastava o cólofon para tornar este livrinho matéria poética. Editado há vinte anos, encontrei-o em venda numa daquelas tendas sem tecto onde hoje se comerciam livros, nas estações de Metro. Tinha-o, comprei, dois euros e cinquenta cêntimos. Em vinte anos 900 exemplares que não esgotaram. Estão no Cais do Sodré, nos túneis.

O burgo quer é vuvuzelas.

(excerto)

EXPERIMENTAVA viver, quase como um exercício. Tinha seios nas mãos e a cara totalmente transformada em ovo. Palpitava-lhe nas têmporas um amor patético pelo mundo, tão ridículo e imenso que lá caberiam, pouco apertados, os outros amores. E dormia acordado, pelo prazer de esbater fronteiras.

Eu tenho raiva à ternura. Eu tenho raiva de ter raiva à ternura. Eu tenho a doença da ternura por ter raiva. Eu tenho tudo excepto a ternura. Eu não tenho ternura e sofro de inveja de quem tem ternura. Eu já só tenho raiva.

(…)

Cintra, Manuel. Tangerina. Lisboa: Edição de Autor. 1990.

[Nota: transcreve-se apenas a primeira das 16 páginas deste «folheto» de Manuel Cintra (de quem aqui fala Henrique Fialho); não se pode transpor a belíssima mancha do texto, a partição do mesmo, a exactidão da cor da capa de Vítor da Silva Tavares (esse, o homem da &etc.), o toque dos tipos sobre o papel. Um regalo, que se pode encontrar ainda]