João Aguiar – (1943 – 2010). Um escritor «light»?

by manuel margarido

Morreu ontem João Aguiar. Surgiu e fez-se notado no «romance histórico» com “A Voz dos Deuses” (1984). Na altura o género não estava popularizado, e o sucesso que o romance conheceu causou alguma surpresa no meio literário. Seria, hipoteticamente, um escritor «light»? Sobre isso afirmava, em entrevista  publicada no blogue Porta Livros, que pode ser lida aqui:

A literatura light poderá chamar leitores?
“Não sei. Tenho medo da literatura light. Por um lado pode ser o início, mas também pode ser o fim. É tudo muito complicado de definir. Eu iria mais para o que está bem escrito e mal escrito. Sherlock Holmes era literatura light! Não se pode ignorar.”

Parece-me bom que também haja escritores light (que não será sequer definição ajustada à muito diversa obra de João Aguiar), que têm leitores, que “criam” leitores. A Caras não cria; a Bola agora também já não.

João Aguiar (1943 - 1910)

De “A Voz dos Deuses” (excerto de uma extensa transcrição da obra, no Projecto Vercial)

II – A INSÍGNIA DO TOURO
I
Durante a Primavera fizemos pequenas incursões na Betúria, mais para sobreviver que para enfrentar seriamente os Romanos. Os nossos efectivos não permitiam uma ofensiva – Cúrio e Apuleio teriam uns dois mil homens, nessa altura – e só podíamos atacar de surpresa e em terreno conhecido.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, aquela Primavera foi para mim um período importante porque me habituei à vida de campanha, às longas marchas, a viver o dia-a-dia, a enfrentar o perigo constante. Habituei-me também ao lado menos brilhante da guerra, o espectáculo das aldeias saqueadas e das mulheres violentadas (coisa que nunca gostei de ver; mas alguns dos nossos eram especialistas nisso e os príncipes toleravam a prática, embora não a seguissem). Na verdade, o que menos me agradou foi sentir que éramos mais um bando de salteadores que um exército. Não havia objectivo, excepto viver à custa dos saques e matar Romanos.

Outro aspecto penoso mas inevitável da guerra é assistir à morte de camaradas com quem na véspera se partilhou uma refeição à roda da fogueira. Assim perdi o meu amigo Indibilis, que morreu durante um assalto, trespassado por uma lança. Vinguei-o matando o legionário que o atingiu. Antes de morrer, Indibilis ofereceu-me o seu capacete de bronze e pediu-me que, em troca, enterrasse o seu corpo. Cumpri esta vontade; fora um guerreiro corajoso e um bom amigo, sempre pronto a instruir-me no ofício da guerra.

Quando o tempo aqueceu, anunciando a chegada do Verão, um grupo de cavaleiros de além-Tagus veio até nós com mensagens para Cúrio e Apuleio. Os príncipes ouviram os recém-chegados em privado, mas logo a seguir convocaram uma assembleia de tropas. Os mensageiros, instados a repetir em público o que haviam dito aos comandantes, anunciaram que estava em preparação um ataque em larga escala, dos Lusitanos e dos seus vizinhos, contra a província Ulterior, para vingar enfim a traição do pretor Galba. Naquele momento, acrescentaram, formava-se uma coligação de reis, príncipes e chefes tribais; entre os povos que enviariam contingentes para a nova grande hoste contavam-se os Igeditanos, os Taporos, os Túrdulos de Aeminium e Conímbriga e também os Vetões, fiéis à aliança com a Lusitânia. Havia ainda muitos outros – ao todo, cerca de dez mil guerreiros. Alguns chefes, dos mais ilustres, tinham manifestado o desejo de propor a Cúrio e Apuleio que participassem na expedição e os emissários ali estavam: se a proposta fosse bem recebida deveríamos comparecer na grande assembleia que se ia realizar junto dos montes Hermínios.

O debate foi curto porque, afinal, os comandantes já haviam decidido aceitar o convite. Os mensageiros, que nos serviriam de guias, foram honrados com um festim – não muito abundante, já que todos nós devíamos ficar suficientemente sóbrios para partir ao romper da aurora, por isso a cerveja e o vinho foram racionados. No entanto, quando me deitei sentia-me tonto; não por causa do álcool, mas pela excitação. Finalmente, Roma ia ter uma resposta, Camalo e Beduno poderiam repousar contentes no reino dos espíritos. (…)