Miguel Torga – Auto-retrato português

by manuel margarido

"mar português 2" © Pedro Norton, Olhares, fotografia online

(à Paula, contrariadora de preconceitos)

Auto-retrato português


Nesga humana de um grande mapa humano,

Aqui, a ocidente e ao sol, dormito;

O manto do infinito

Veste-me a pequenez;

E o mar cerúleo, aberto à minha ilharga,

Alarga

O meu nirvana azul de português.


Rei que renunciou, cansado,

Ao ceptro da aflição,

Digo não,

Digo sim,

Com igual abandono…

Tão distante de mim

Como do trono…


Vivi antes da hora o que vivi.

E, agora, vegeto,

Feliz de nada ser,

De nada desejar,

E de nada sentir,

Agradecido ao mar de nunca acordar,

E agradecido ao céu de sempre me cobrir.

Torga, Miguel, in “Colóquio/Letras” n.º 10, Novembro de 1972, Fundação Calouste Gulbenkian

"mar português 3" © Pedro Norton, Olhares, fotografia online