Mafalda Gomes – «o meu amor é glandular»

by manuel margarido

Pode falar-se em maturidade na poética de uma autora de 17 anos? Não creio. Nem a questão é importante, a partir do momento em que nela encontramos maioridade, num plano já muito elevado comparativamente aos intimismos, lirismos e à tendência confessional da escrita «adolescente», da qual totalmente se desprende e distingue a escrita de Mafalda Gomes. Assinalável pelo domínio dos processos formais e mesmo por um rigor que exige mão muito mais que apenas certa; um olhar cravado entre a ironia e a crueza, por vezes em simples epigramas cortantes. Muito jovem escritora. Já escritora.

Mafalda Gomes pertence ao colectivo Ajavardamento Poético (as «Abóboras Mecânicas», alunas do 12ºE da Escola Secundária do Padrão de Légua. Ana Cardoso, Ana Teles, Bruna Gonçalves, Isabel Piano e Mafalda Gomes) cujo interesse pela poesia, espelhado no seu excelente blogue, já se falou aqui. No referido blogue, existem links para os blogues pessoais de quatro das integrantes do grupo. O blogue de Mafalda Gomes, «o meu amor é glandular», de onde se extraíram os textos «epigramáticos» e o poema, é uma visita irrecusável.

"floating by", Oliver James Squibb © Oliver James Squibb, via Deviantart

*


da charcutaria


eu não faço fiambre de memória

estou a encher chouriços onde me deixaste

*

comi do pão que amassei


Mastigo o mês de maio em direcção ao colosso mar que me afogará.

É o extremo de trajectórias distintas que me aleijam


*

” e rapazes ? “

existem no mundo para glória de suas mães

*

menstruação


gosto que as mulheres sangrem, manchem

a roupa interior, sujem

a borda dos dedos o interior das

frases e dos favores –

gosto que as mulheres sangrem sobre tudo quanto lhes estende a mão

a faca acesa que as atravessa

o rio que escorrega o lume que tomba o corpo

sobre tudo quanto as faz morrer

gosto que as mulheres morram