Finnegans Wake redux

by manuel margarido

"porra, onde é que eu ia?!"

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Dois senhores pacientes, um linguista (Danis Rose) e um físico (John O’Hanlon), dedicaram 30 anos de vida a introduzir umas singelas 9.000 correcções e “pequenas” alterações ao original da célebre, polémica e problemática obra de James Joyce; nove milhares de pequenos nadas que, de acordo com os autores, conferem maior coerência e inteligibilidade ao texto: «Esta coerência foi restaurada por completo na nova edição e resulta no que se pode chamar a primeira edição definitiva da obra-prima de Joyce», afirmam, orgulhosos, os perpetradores.

Pois. Perante tanta confiança e júbilo, algumas perguntas se podem colocar:

Queremos ler o Finnegans Wake para o entender?

Queremos ler o Finnegans Wake?

Quereria o autor que a obra fosse arredondada e facilitada? Ou até simplesmente lida enquanto “leitura”?

Conseguiram Rose e O’Hanlon fazer mesmo alguma coisa de jeito, ou apenas usaram adoçante?

E pode plausivelmente acreditar-se que, agora-finalmente-até que enfim, com 9.000 pinceladas, a coisa fica assim “legível” e lobotomizada?

A avaliar por estas duas páginas dos apontamentos de Danis Rose, não creio. A quem se dispuser a gastar 900 libras na coisa (em edição especial) garanto que é uma arriscada decisão de investimento no mercado de bens culturais; aos outros, quase que afiançaria tratar-se de uma inutilidade.