Tiago Patrício – “A literatura e a leitura da luz”

by manuel margarido

Ainda da cràse número um. Última escolha para deixar aqui. O primeiro texto da revista, de Tiago Patrício [Funchal em 1979]. Uma pequena narrativa de melancólica ironia, escrita em andante, se é permitida a comparação, a marcação do tempo.

© José Monteiro, Olhares, fotografia online

A literatura e a leitura da luz

O Homem Desempregado gostava muito de ler e tinha um cuidado extremo com o tipo de luz que seleccionava para a leitura, preocupava-se tanto com este assunto que muitas vezes se esquecia do que estava a ler e murmurava satisfeito:

– Como é boa esta luz para acompanhar uma leitura.

Passava manhãs inteiras ou semanas à volta da mesma página que tanto podia ser de filosofia política como de uma lista da toponímia da sua cidade e nem dava conta da perda de validade de certos livros requisitados nas bibliotecas, o que deixava os funcionários muito aborrecidos.

Raramente lia à noite, só em último caso, em especial livros de instruções para alguma tarefa imprescindível ou algum telegrama que lhe chegava depois do crepúsculo.

Na casa onde morava tinha uma luz franca que iluminava os textos e as suas ideias mais complexas, mas a partir de uma certa hora o sol deixava de bater na sala virada para Sudoeste e tinha de sair de casa à procura do poente como de alimentos para a dispensa. Dobrava a esquina e entrava num largo que se abria num miradouro sobre o rio, com alguns bancos de jardim que lhe agradavam sobremaneira. Assim, nos dias amenos, o Homem Desempregado descia as escadas do prédio e saía para a rua com um livro forrado a papel de jornal debaixo do braço. Passava por baixo de duas árvores e procurava um lugar com espaço para si e para o seu livro, entre os grupos de pessoas já instaladas.

Sentava-se cheio de boa disposição, pedia licença e agradecia a amabilidade a todos aqueles que faziam companhia ao entardecer. Aconchegava o olhar até ao outro lado do rio, para ficar com uma boa visão periférica e fazia inspirações semibreves de contentamento. Porém, após ultrapassar as três ou quatro páginas do seu livro da tarde, começava a ficar incomodado com o excesso de ruído que não lhe permitia ler sem estar sempre a perder-se com os estímulos, especialmente com os daqueles que tinham chegado pouco tempo depois dele e já eram considerados intrusos. Nessas alturas o Homem Desempregado lembrava-se de que a intolerância aumentava com a permanência e o apego aos lugares. Após longas e espaçadas inspirações conseguia voltar à leitura da luz, sem contudo deixar de sentir uma certa benevolência por aqueles que conversavam no largo do miradouro sobre a sua leitura.