Novos Poetas (53) – Helena Carvalho

by manuel margarido

Acaba de me chegar às mãos o n.º um da cràse – “revista de literatura emergente”, março de dois mil e dez, 250 exemplares, um luxo comparados com os 60 do número zero. Um luxo, também, a lista de autores e a fasquia qualitativa dos textos publicados, entre  poesia e  contos, sendo esta claramente uma edição mais forte que a primeira zero. Como não poderei divulgar todos (e de quase todos me apeteceria deixar um poema aqui) escolherei três ou quatro autores. E de escolha falo também com alguma propriedade.

E começo pela Helena Carvalho (Nazaré, 1982), poeta muito da predilecção deste sítio. (a autora: Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Poética e Hermenêutica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É actualmente professora no ensino secundário. Seleccionada para o Concurso Nacional Jovens Criadores 2009, na área de literatura, tendo publicado na Colectânea Jovens Escritores 2009. Colaborações dispersas em revistas literárias. Autora do blogue a luz da noite.).

Helena Carvalho apresenta, neste um da cràse, um conjunto de quatro fortíssimos poemas. Opta-se pelo primeiro deles, seguindo o critério mais neutro.

Foto-verbo-grafia


Interromper o branco da página como a cegueira branca dos olhos.

As palavras são folhas que se evolam da gravilha rasteira dos pátios

em fins de tarde outonais.

Uma imprevista aragem inicia-as na arte obscena do movimento –

um deslizar lânguido em pequenos sopros;

uma penetração violenta em remoinhos de pó, nojo e sentido.


Esperar a luz projectada que nunca chega inteiramente aqui.

A claridade desmedida adere à matéria urgente da visibilidade,

primeiro nos olhos

depois na ressonância incorpórea das películas. Cumpre-se a luz

numa câmara escura,

exposta na contenção profana das imagens planas e nas quatro dimensões

das pedras angulares.


Acontecer-nos a gestação das horas fragmentadas

dos quadros repetidos até à negação da sua aura.

Um sentido a rebentar na mão pueril e espantada,

como duas pernas de mulher prematuramente abertas

em posição de parto.


Nascer a palavra como uma fotografia em meio-tom

a mover-se pela sombra de si, no contraste abismal

entre a luz que se capta e a que ainda não chegou.

© Lia, Olhares Fotografia Online (D.R.)