Daniel Maia-Pinto Rodrigues – A Casa da Meia Distância

by manuel margarido

Bons acontecimentos colorem os dias. A Mariposa Azual volta a publicar poesia, neste caso de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, já com um longo percurso de escrita, animação e divulgação. Confiando inteiramente no critério de Helena Vieira, editora da Mariposa Azual, aqui se deixa o texto de apresentação, a belíssima capa (autoria de Luís Batista) e um poema, em pré-publicação, escolhido pela própria editora. É longo, singularmente longo no meio dos poemas que compõem o livro, este poema n.º 54. Ler, por vezes, pede-nos tempo. Depois devolve.

A Casa da Meia Distância será lançado no Porto, dia 10 de Fevereiro, às 21h30m (Bar Labirintho)

Declaração de interesses: publica-se este poema, antecedendo o lançamento do livro, não por amizade para com a editora. Mas por ter gostado dele, poema.

*

“Como se chama o lugar onde ficaram os nossos sonhos, Quando tivemos que sair?
O novo livro de Poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues -A CASA DA MEIA DISTÂNCIA, depois da consagração dos dispersos na Antologia DIÓSPIRO (Quasi Edições, 2007), é um regresso, um retorno ao poder das pequenas coisas.
Quietas. Simples. Suspensas. Que ficaram nesse limbo – A meia distância.
A distância que por certas vezes sentimos que se coloca entre nós e a nossa vida; entre as palavras e as coisas; entre o céu e a terra; entre o antes e o depois.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues nasceu no Porto, em 1960, cidade onde vive desde sempre. Autor de uma considerável obra que inclui poesia, romance e novela, é uma figura da cena literária do Porto, por ter sido um dos animadores, dizedores, divulgadores de poesia no Pinguim Bar, nos idos anos de 80 e 90.
Entramos na casa.
Regulamos a nossa própria altura pela altura desta casa. A porta é baixa. Obriga a dobrar um pouco o pescoço e a flectir os joelhos para podermos entrar nas suas salas de paredes claras e um pé-direito confortável para humanos.
Registamos o aviso / epígrafe da velha fábula de la Fontaine. A infância-raposa, continua à procura de uvas maduras nos livros.
Mais uns passos e passamos pela Definitiva História de Julian, o Pastor.
Entramos, pé ante pé; a porta ficou entreaberta desde os anos 80, quando um grupo de mulheres e um homem aqui passaram umas férias de Verão.
Percorremos, devagar, os seus 64 cantos / 64 poemas / 64 pausas. Espaços da casa / espaços do livro / takes do tempo.
Uma voz suave e doce guia as nossas descobertas. Revelações, inconfidências, provocações, relatos. Brincadeiras. Levezas.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues é o biógrafo deste tempo e deste lugar. Regista o seu pulsar. Guarda os factos, a imaginação, o desejo, a luz desses dias, a frescura dessas noites.
O livro / casa desfilou diante de nós. É hora de partir. Chegou a melancolia, essa outra doença do tempo. Anuncia-se o momento em que é preciso SAIR DA CASA UTÓPICA PARA IR MORRER À REALIDADE.
Mas antes da despedida, ainda vamos a tempo de aceitar o convite e voltar ao VERÃO 77 – POP DAYS em ESPOSENDE.”

– Helena Vieira

Daniel Maia-Pinto Rodrigues é o autor das seguintes obras publicadas:
Vento, Edição de autor, Porto, 1983
Conhecedor de Ventos, Ed. Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto, 1987
A Próxima Cor
, Ed. Pinguim Poesia Bar, Porto, 1983, ( Prémio Nacional Foz Côa/86 -Menção Honrosa Novos Valores da Cultura, 1988)
O Valete do Sétimo Naipe, Ed. Felício Cabral Publicações, 1994, com prefácio de Mário Cláudio
O Céu a Seu Dono, Co-autoria com João Gesta, Ed. Edicións Positivas, Santiago de Compostela, 1997
A Sorte Favorece os Rapazes, Ed. Fundação Ciência e Desenvolvimento / Teatro do Campo Alegre, 2001
O Afastamento Está Ali Sentado, Ed. Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2002
O Diabo Tranquilo – Co-autoria com Isabel Rio Novo; pósfacio de Pedro Eiras, Ed. Campo das letras, Porto, 2004
Malva 62, Pósfacio de Manuel António Pina, Ed. Quasi Edições, Vila Nova Famalicão, 2005
O Corredor Interior (romance), Ed. Clube Literário do Porto, Porto, 2006
Dióspiro –Poesia Reunida 1977-2007 (antologia com selecção e organização de Luis Miguel Queirós e José Carlos Tinoco), Ed. Quasi Edições, Vila Nova Famalicão, 2007
Os seus poemas integram várias e importantes Antologias de Poesia Portuguesa Contemporânea, incluindo a monumental “Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, que lhe dedica mais de 20 páginas, apresentado-o como um poeta central dos anos 60 do sec. XX.

Capa de Luís Barata © Mariposa Azual (clique para ampliar)

54

Acho que estou a precisar de ir descansar. Vou para o meu quarto,
que sei perfeitamente onde fica.

Lembro-me de outrora ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de pequenas gavetas,
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um solitário feixe de luz incide no armário,
parece vir enfeitado de lampadazinhas coloridas,
conhecidas também por colours of the rainbow.
Naquela gaveta poderá estar um perfil de telhados – silhueta trespassada
pelo grande sol frio do fim da tarde.

Lembro-me de outrora ter falado de bosques…
Naquela gaveta poderá estar o espelho longevo
com seu insubstituível reflexo de divisões infantis.

Quatro ou cinco gavetas terão uma praia
que se estende com a luz matinal
a varar as distâncias.

Outras terão as abas dos guarda-sóis
com o som que fazem quando lhes dá o vento.

Tenho um armário com as imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.

A perenidade ao sol
de Françoise a beber o mazagrin
também deve estar em alguma gaveta.

Não faço ideia da gaveta em que estará a tarde
que decorre com esplanadas ao fundo
e onde tudo quanto se move
é descontracção e alegria.

Fátima oferece-me água da Serra da Penha
numa gaveta que exista e que seja secreta.

Em que gaveta estará o menino a lamentar-se aos pais
por o caranguejo que apanhara
já não estar no balde que trazia?

Françoise bebe agora um cocktail, talvez de ginger ale.
Mas não sei em que gaveta. Se bem me recordo, contemplava um soleil couchant,
kitsch, ele também, por sua vez, mas lindo até ao fim do mundo.

…………………………………………………..
distantes margens delineando a noite,
pontilhadas por pequenas iluminações esparsas
que parecem só existir assim, vistas de longe.

Dentro desta gaveta estou eu com dezassete anos, no pinhal ao sol,
com duas latinhas de lulas e a minha ideia de poesia.

Aquela gaveta, que parece mais privada,
seria a que as mulheres daquele tempo escolheriam
para retocar nos lábios o bâton cereja.
E nesta, mais notória,
estarão os cães a ladrar e a caravana a passar.

Tenho ideia de que será nesta gaveta – bem, ou talvez nesta –
que se poderá encontrar Françoise
a soltar o seu cabelo castanho de francesa.
Mas, por exemplo, não faço a mínima ideia
onde possa estar a brisa suave que ameniza a temperatura de Agosto,
nem a gaveta que guarda o relógio que nunca pára
e que agora, muito naturalmente, assinalará as banalíssimas onze da manhã.

É provável que no armário já não exista nenhuma gaveta
com o entusiasmo do mar sobre os penedos. É provável que já não haja
nenhuma gaveta vaga para a senhora de apelido Araújo
e para as palavras límpidas que de olhos nos olhos dissemos,
enquanto – na voragem exterior a nós – lhe dedicava um livro
e lhe entregava nesse olhar os meus últimos feixes
de vitalidade, os meus mais raiados votos de que fosse feliz.
Não mais a verei, amável senhora,
inteligente e bonita senhora sensível. Não mais a verei,
e vim para esta casa com essa amargura.
Porque penso que a poderão interessar, procure as palavras
de Isabel Rio Novo sobre a Dimensão Fantástica.
Presumo que as encontrará com facilidade nos recentes dispositivos tecnológicos.
E procure também a própria Isabel Rio Novo; encontrá-la-á
ao seguir pela escada que dá para o lado do mar.

Senhora de apelido Araújo, esta foi a forma que tive de comunicar
consigo. De lhe dizer que acredito em si. De lhe dizer
que acredito na Nova Mulher, com a Qual (movimentos democráticos
de cariz feminista) me estanciei no lindíssimo período da minha mocidade. Essa [Mulher
é ainda hoje a minha Mulher favorita. E agora, desta vez, sugiro-lhe
que procure Ana Luísa Amaral, encontrá-la-á com facilidade onde estiver a [acontecer
a boa educação.
Mostre a sua existência, caríssima senhora Araújo, mostre o seu valor,
mostre que não é uma metáfora deste texto. E exista tal qual é,
ouça, tal qual é, não pusilânime, não petulante feita à pressa, não solerte
miserabilista, não carneirinha da manada, e sabendo
– como bem o sabe – que o azedume não é sinónimo de raciocínio,
antes sim, como facilmente se compreende
(só os próprios azedos não o compreendem por nada saberem raciocinar),
sinónimo das próprias frustrações.
esta foi, bela senhora de apelido Araújo, a forma que tive de comunicar
consigo, a forma que encontrei para lhe poder dedicar as duas próximas estrofes.

Crianças de aldeias, crianças a quem na infância acenei
do vidro traseiro do automóvel rápido
e que ficaram pelos caminhos a brincar ao verão,
sem que para isso precisassem de conhecer praias.
O que foi feito de vós?
O que fizestes aos vossos sorrisos puros?
Como eu gostava que a minha vida vos tivesse oferecido uma gaveta!
Choro agora de tantas saudades por tão breves instantes.

Raparigas contentes em suas roupas claras,
em suas roupas claras sobre os seios que cresciam,
amei-vos sem nunca mais vos ver,
amei-vos por nunca mais vos ter visto,
amei-vos intensamente, como a qualquer coisa que se desprende
e se perde da nossa lembrança de saber o quê.
Em mim ficastes a pertencer às distâncias cheias de luz,
diluídas agora, e ainda mais, pelas minhas lágrimas.
Neste momento, tardio, em que é de mim que me despeço,
entregar-vos-ia, no melhor gesto da vida, o meu armário todo.

A baleia encalhada deve estar nesta gaveta maior,
e nestas ao lado estarão as pessoas transportando água do oceano
para lhe verter no dorso.
Se de facto é nesta gaveta maior que está a baleia,
é por aqui que está o marinheiro da luz pálida e molhada,
a comunicar que mais nada se podia fazer;
a baleia tinha morrido.

Lembro-me de um dia ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de gavetas
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um armário com imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.



Advertisements