Olga Roriz – Electra

by manuel margarido

Estreia, no dia 28 de Janeiro, no Teatro Camões (Lisboa) a primeira produção de 2010 da Companhia Olga Roriz. “Electra” tem a particularidade de ser coreografada e interpretada a solo por Olga Roriz. Todas as informações podem ser obtidas no site da Companhia. Divulga-se o acontecimento (que também irá, creio, ao Porto, Teatro Nacional de São João); e o texto que a coreógrafa e bailarina escreveu a propósito do espectáculo; e duas das fotografias dos ensaios. Coloca-se, no fim, um muito belo texto de Olga Roriz, datado de 2004, onde esta aborda a palavra, a necessidade e a pertinência da “textualidade”, a partir do conceito de espectáculo.

Ensaios de ELECTRA, fotografia de Rodrigo de Souza © C. O. R.

A minha Electra

As cenas são descoladas e aparentemente sem relação ou objectivo comum, no entanto, vão desvendando uma espécie de personagem misterioso.

É como se houvesse uma inquietação latente naquela mulher, onde cada momento e cada lugar por onde passa tanto são acrescentados como anulados pelos que se seguem.

Cada cena, cada passagem tem uma força estranha, uma vivência e uma certeza que se instala desde o primeiro gesto.

As acções banais entre as cenas carregam a carga do que acabou de fazer, tornando essas acções, também elas, em cenas.

É uma mulher que não pensa nem sente. Ela tortura-se, obriga-se, anula-se…

Castiga-se a passar o tempo congeminando uma nova forma de agir, de estar, de se lamentar, de se preparar, de lutar,… de jamais se esquecer.

Não há resignação, não há desistência, apenas por vezes uma espécie de falso e tranquilo abandono.

Ela mostra sem pudor a sua força e a sua fraqueza, a sua nobreza e a sua humilhação.

Ela é uma mulher assustadoramente presente na sua ausência.

Os seus olhares para o exterior de si são os únicos indicativos da sua espera onde o tempo não existe.

Ela nunca se expõe, apenas se dispõe.”

Olga Roriz, 24 de Novembro de 2009

Ensaios de ELECTRA, fotografia de Rodrigo de Souza © C. O. R.

O Texto como uma Necessidade

“O espectáculo não quer chegar a outra coisa senão a si próprio.”

“O caracter fundamental tautológico do espectáculo decorre do simples facto de os seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade.”

Cito Guy Debord em “A sociedade do espectáculo”, porque a sua leitura fez-me questionar a importância e a necessidade do espectáculo na sociedade, versus a sua natureza supérflua e desnecessária.

Partindo eu do princípio que há uma necessidade para além da do espectáculo, na pessoa do espectador/consumidor, parece-me evidente e intrínseca à própria noção de arte a necessidade inerente ao criador e aos intérpretes.

Permitam-me ir um pouco mais longe, ouso chamar a esta necessidade interna a primordial, a válida, o objectivo e a finalidade, a única razão plausível da existência do espectáculo.
Dizer o que se quer para que fique dito para sempre ou não dizer o que se quer para que não fique dito para sempre.
É indiferente e nada é indiferente.
Do nada faz-se tudo, mas nunca nada tanto faz.
Qualquer palavra após um breve suspiro, ais e mais ais, um inesperado silêncio absoluto interrompido por um longo discurso amoroso culminando num rodopiar vertiginoso até ao desmaio, representado com toda a lógica ou mesmo de um modo aparentemente absurdo, só é válido se nascer de uma necessidade seja ela de que ordem for, mesmo que vinda do inconsciente, do instinto…
O texto nasce ao mesmo tempo que a necessidade dele!

Olga Roriz, Março de 2004. Artigo para os “Cadernos do Rivoli” (fragmento de um conjunto, sob o título: ” O C O R P O Q U E F A L A D O C O R P O Q U E F A L A D O”)  – leitura na íntegra aqui.