Novos Poetas (49) – Ana Salomé

by manuel margarido

Do quarto número da revista criatura escolho, motivado pelo gosto, dois poemas de Ana Salomé, aqui colocados com graciosa permissão da autora. Dos autores publicados neste número da criatura um ou outro surgirão neste sítio, por escolha própria, necessariamente subjectiva.

Cristal

Levantámo-nos da cama,

arrastando os lençóis pelas ruas.

É urgente encontrar um café,

encontrar uma mesa a um canto no telheiro

e ter com quem não falar.

Daquela esplanada os monumentos são excessivos.

O barroco enche-nos a boca de pedras.

Para as árvores, cultismo, conceptismo, é brisa

e o sol encima-se na talha azul acordada.

Mais um, outro. A estatuária fonte não seca.

Evitamos a sentimentalidade do cristal,

a desusada lágrima pública,

para que caia no poema em segredo.

Vem enfim o café servido por anjos. O alívio.

Um cigarro que nos conte das cinzas pulmonares

em trabalhos de restauro e contrabando.

A paisagem é interior e facciosa em milhares de degraus.

Mesmo quando nos levantamos, descemos.

"que tenhas de mim o contorno incerto" © Carla Salgueiro, Olhares, fotografia online

Tela

Hoje sou eu que poso para o teu poema

Como uma modelo numa cama de flores

Que estaria

A vida inteira diante dos teus olhos

Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.

SALOMÉ, Ana, in “Revista criatura n.º 4”, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009