Eric Rohmer (1920 – 2010) – anjos e hormonas

by manuel margarido

Em 1980, ano em que cursei funestamente o primeiro ano de direito em Coimbra, duas coisas salvaram-me: uma entrega total à leitura, que excluía apenas as sebentas, e o ter vivido ‘principescamente’ instalado num quarto com singular vista para nascente, acompanhando as colinas e a chegada do rio à cidade, na antiga sede do C.A.D.C. (à época Instituto Justiça e Paz), na cidade velha alta; era o Instituto liberal e calorosamente dirigido pelo P. Idalino Simões, que saudades. Numa das suas (dele) ideias peregrinas, cultivar os rapazes, o P. Idalino lembrou-se de organizar, na biblioteca, sessões de cinema à noite. Ficámos pelo Eric Rohmer, creio. E chegou. Não, não percebiamos nada da importância da “Nouvelle Vague“, nem tinhamos noção da importância das “Seis Fábulas Morais“. Mas vimos tudo o que pudemos. E discutíamos, por obra e graça do espírito santo discutíamos os filmes até à exaustão, valha-me deus. Discussão turvada, no meu caso, por um sentimento agudo e ambivalente: a dialéctica possível entre a a vertente metafísica e o subtil erotismo da coisa. Subtil? Pela palavra, pelos diálogos, muito em mim se acendeu, e não apenas na ordem do espírito. Uma terceiro factor salvou-me o ano, lá pela primavera. Digamos que vivi sob o signo de Rohmer: não foi pouca coisa, traduzida que foi em transcendentes passagens ao acto. Palavra de honra, aos 18 anos até os anjos nos sublevam as hormonas.


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