Só por hoje

by manuel margarido

Só deus nosso senhor, a Louise L. Hay, a Isabelle Fillozat, a senhora que escreveu o “Comer, orar, amar”, o Paulo Coelho ou a Margarida Rebelo Pinto sabem a estima que tenho pelos livros e pelos textos de “auto-ajuda”. São excelentes alternativas de entretenimento; não aquecem nem arrefecem, podendo embora fazer estragos no espírito dos crédulos. Mas não deixam de ser fantásticos meios de auto-ajuda para quem os escreveu.

E, contudo, veio parar-me às mãos uma pequena cartolina impressa em formato A6. Um texto breve, lapidado pelo tempo e pela experiência dos Alcoólicos Anónimos (A.A.), desde há décadas uma discreta comunidade de resgate de vidas, de mudança de paradigma e de comportamentos, um lugar de liberdade para aprender a lidar com uma doença de sentimentos e emoções. Através da partilha. O texto chama-se “Só por hoje”. Na simplicidade dura, na suavidade firme das palavras, poderia servir para reflexão de toda a gente. Toda a gente mesmo. Não como doutrina, credo, oração. Mas como uma perspectiva das possibilidades do humano, na sua ínfima, gigantesca condição.

Pronto, podem chamar-me corny.

Ilustração de Danuta Wojciechowska para "O menino eterno", José Jorge Letria, Porto, Âmbar, 2002. (d.r.)

Só por hoje

Só por hoje, vou procurar viver unicamente o dia presente, sem tentar resolver de uma vez só todos os problemas da minha vida. Durante doze horas posso fazer qualquer coisa que me assustaria se eu pensasse que tinha de a fazer por uma vida inteira.

Só por hoje vou estar feliz. A maior parte das pessoas é tão feliz quanto se dispõe a sê-lo.

Só por hoje vou tentar ajustar-me à realidade e não tentar adaptar tudo aos meus desejos. Vou aceitar a minha «sorte» como ela vier e vou moldar-me a ela.

Só por hoje, vou tentar fortalecer o meu espírito. Estudarei e vou aprender alguma coisa útil. Não vou manter o meu espírito ocioso. Vou ler alguma coisa que exija esforço, pensamento e concentração.

Só por hoje, vou exercitar a minha alma de três maneiras: vou fazer um favor a alguém sem que se note e, se alguém se aperceber disso, esse facto não conta. Vou fazer pelo menos duas coisas que não me apetece – só por exercício. Não vou mostrar a ninguém os meus sentimentos de dor. Poderei estar magoado mas não revelarei a minha dor.

Só por hoje, vou ser agradável. Vou apresentar-me aos outros da melhor maneira possível: vou vestir-me bem, falar baixo, agir delicadamente, não farei críticas, não vou ter nada de negativo que dizer aos outros, não vou tentar melhorar  nem controlar ninguém, excepto a mim próprio.

Só por hoje vou ter um programa. Pode ser que eu o não siga a rigor, mas vou tentar. Vou evitar duas pragas: a pressa e a indecisão.

Só por hoje, vou ter meia hora tranquila só para mim, e descansar. Durante esta meia hora, num determinado momento, vou procurar ter uma melhor perspectiva da minha vida.

Só por hoje, não vou ter medo. Muito em especial não vou ter medo de apreciar a beleza e de acreditar que aquilo que eu der ao mundo, o mundo me devolverá.

(sublinhado meu)

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