Beatriz Hierro Lopes – “n.º 82”

by manuel margarido

[declaração de interesses: conheço pessoalmente a autora, sendo a estima que lhe tenho factor a considerar no que escrevo]

A produção escrita de Beatriz Hierro Lopes (Porto, 1985), embora recente e particularmente oculta (apenas publicada nos três primeiros números da revista criatura), organiza-se formalmente em pequenos textos narrativos que, não sendo fragmentos, ganharão muito com uma leitura sequencial, que pode em parte ser feita no blogue Klein, onde a autora edita alguma da sua melhor escrita. Tal leitura em sequência dos textos de B.H.L. terá duas linhas de interesse: desde logo a percepção de uma evolução evidente das competências de escrita, do alargamento do leque das suas ferramentas e da concomitante evolução para uma textualidade mais fluida e segura; mas também importa o jogo comparativo, no qual se pode identificar uma capacidade imagética de grande fôlego (associada a uma imaginação vibrante, o que não é a mesma coisa) que é evidente nestas narrativas, histórias que, partindo muitas vezes do episódico, do regresso de um passado clivado, quebrado, ascendem ao território da memória nostálgica, de uma aceitação do agora como uma inevitabilidade apenas aparentemente indiferente; nesta aparência tem origem a carga dramática dos textos de B.H.L., ainda mais acentuada pela personificação dos lugares, dos objectos, dos momentos, mesmo das cores ou das luzes, elementos que se instauram como personagens geradoras de uma incessante necessidade de apaziguamento. De perpétua insatisfação, portanto. Textos de fronteira entre a prosa, a prosa poética, a dramaturgia. Bons textos, de uma escritora que tem voz própria; e que, com ela, irá alcandorar-se a plano singular nos tempos mais próximos. Se não estou enganado.

B&W © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online (d.r.)

n.º 82

Perseguia a silhueta de ruas pouco conhecidas. À procura daquela rua em particular: a rua que reflectia o rosto das palavras e o paladar adocicado das histórias que ela ouvira um dia. Há muitos anos. Presa entre a estreiteza de todas as ruas que a separavam da Rua em que nunca vivera. Seria, talvez estranho o seu desejo de retornar a uma rua que nunca fora sua. Mas ela crescera assim: alimentada pelo açúcar escondido nas palavras sibiladas ao seu ouvido, pela sua mãe.

Todas as histórias de que se lembra – e lembrava-se, também, da textura empoeirada dos tapetes sobre os quais se deitava, apoiando o rosto entre as mãos. atenta ao som das frases – que se precipitavam, atropelavam, matavam, na pressa com que atingiam o ponto culminante da narrativa. Aí chegadas, calavam-se. Consoladas, entreolhavam-se as palavras, ao deleitarem-se com o vazio silencioso que entre elas se erguia para revelar o propósito obscuro da história – começavam na Rua. Só depois se adivinhavam as paredes da Casa.

Era assim na Rua da Picaria. Uma rua que não é especialmente bonita. Uma rua embrenhada numa luminosidade que apenas é visível à noite, quando as janelas embaciadas respiram o calor que se liberta de dentro delas. Nessa rua, as casas não são casas: são pessoas. E as pessoas são casas vazias que o tempo se esqueceu de demolir. Todo o comércio da rua respeitava a solenidade da mesma. Vendiam-se móveis. Estantes de carvalho, sólidas o suficiente para suportarem o peso incalculável das bibliotecas particulares; camas de casal, camas de criança, berços de bebés, suaves como a mão que, ao embalar a vida, concede-lhe o peso do fim; mesas grandes, mesas pequenas, para albergar famílias inteiras ou pequenas confissões sussurradas entre o ouvido da empregada e a boca da senhora; secretárias de tampos largos, que sustentariam o peso dos cotovelos de quem, ocasionalmente, fosse privado do sono.

Era à noite que ela perseguia a rua. Atravessando todas as vias estreitas que a distanciavam dela. O som da sua passagem pelas ruas sem nome, era idêntico ao som aguçado de uma faca prestes a enterrar a vida. Rápida. Velozes, os seus passos matavam a longitude das ruas. Deixava os cadáveres – alguns ainda quentes – para trás, na sede assassina com que escalava uma nova rua; acreditando sempre que aquela seria a última. A última baixa nessa guerra que é retornar à Casa. Voltar ao princípio que se erguia ainda antes, do seu nascimento.

Não conhecia a casa. Nunca entrara dentro dela. Nunca sentira o frio gélido das paredes de granito do hall de entrada; nunca correra pela escadaria que conduzia os seus habitantes a cada um dos quatro andares; nunca tocara no veludo azul da sala de piano ou se perdera no salão vermelho, onde todos os sofás eram um convite ao silêncio; nunca, mas, nunca, se sentara à secretária do velho Senhor, que morrera sem aviso prévio. Nunca brincara com o sinete que ele deixara sob o tampo daquela mesa e que hoje repousa sobre o tampo da sua secretária. De pinho, demasiado frágil para suster o peso dos cotovelos dela, em noites de insónia.

Mas aquela casa, que nunca viria a conhecer, pertencia-lhe. Era sua por direito de sucessão emocional. Herdara-lhe as memórias. Fizera suas, cada uma das lágrimas, cada um dos sorrisos, cada surto de felicidade e dor, que nela se protegiam das intempéries do tempo. Não é disso que são feitas as paredes? Seriam suas, então. Despidas de recordações, as paredes nunca seria capazes de suportar o peso daquela casa. A casa que, no n.º 82. se abre ao mundo que a espreita do Largo de Montpellier – serena, da cor do sol quando se abate sobre o horizonte marítimo.

A Casa n.º 82 da Rua da Picaria tem a cor de uma mulher. Uma Mulher como jamais deveria ter existido. Uma mulher cujos cabelos não eram da cor do ouro – eram antes, negros como a penugem dos corvos ao anunciarem um mau presságio –; cujos olhos, nada deviam à translucidez desse Atlântico tão português – eram antes, de um castanho lamacento que recordava o cansaço das terras outrora férteis em países distantes –; cuja boca não era espessa como os lábios das mulheres que, em si, escondem uma promessa de vida – eram antes, firmes e tensos, como as bocas femininas cansadas de reproduzirem em palavras o vendaval que lhes assola o espírito. E, no entanto, era ela, a Dourada.

O centro secreto de toda aquela imensa rede que, à sua volta, crescia. Velha. Terrivelmente velha. Esta seria a sua última imagem: cinco crianças ao redor da sua cama; sufocadas pelo ruído da sua morte – sim, a morte é um grito de revolta contra a respiração do corpo – perplexas com a possibilidade da sua não-existência.

Muitos anos depois, era a sua vez de, do outro lado da rua, contemplar a Dourada. Alta. Altíssima. Como o são as casas que se fundem na intimidade das mulheres. Sabia que haviam destruído o miolo da casa. Que não haveria nenhum vestígio da escadaria em madeira. Que o hall de granito se convertera em matéria humana, fria, ignóbil, funcional. Sim. Tornara-se numa casa funcional. Quatro ou cinco escritórios de advogados povoavam-na. Instalaram-se ali como parasitas. Era, talvez, a modernidade que expatriava as histórias que aquelas paredes ainda guardavam.

Sentou-se na soleira da porta. Quieta, fumando um cigarro. Imaginando como seria bom tocar à campainha e ser acolhida pelas paredes daquela casa. Aceitar num único gesto a herança das dores hereditárias que lhe corrompiam o espírito: tão novo e tão velho. Que existir seja a soma de tudo o que antes de nós outros foram, era-lhe compreensível. Incompreensível era a impotência. O não poder retornar ao que, antes dela, era já o seu início.

Vivera o primeiro riso ali – Seria bom voltar a ele. Seria terrivelmente bom, retornar à gargalhada primordial – vivera ali, também, o peso da primeira morte. Uma morte que se funde no seu reflexo todas as manhãs. Enquanto penteia o seu cabelo asa de corvo; enquanto pinta os seus olhos feitos a partir de punhados de terra; ou passa os dedos pelos lábios cansados de pensar.

Tudo seria assim: restar-lhe-ia uma casa adulterada, vazia, cujas paredes mantinham ainda o clarão das palavras há muito ditas. Restar-lhe-ia a Casa onde nunca poderia entrar. Soube-o aí. Soube que há demasiadas casas no seu sangue que nunca voltariam a ver a luz do dia. Soube que ela seria sempre a memória de uma Casa vazia.

Soube. E, aceitou-o.

No fim de contas, teria sempre a Rua. E o seu lugar vigilante à soleira de uma porta.

Lopes, Beatriz Hierro (texto inédito)

Máscaras © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online