Rosa Maria Martelo – A Porta de Duchamp

by manuel margarido

Editado pela Averno, infatigável oficina editorial que, pelo labor de Manuel de Freitas, tem proporcionado, com persistente rigor, alguma da melhor poesia contemporânea, acaba de sair, no final de 2009, A Porta de Duchamp, de Rosa Maria Martelo. O livro reúne pequenos textos em prosa, forma que se vai generalizando em cada vez mais autores, sem que daí venha mal ao mundo, parece que sedento de “romances” de fundo. Mas basta ler A Porta de Duchamp para notar que, pelo rigor formal desta escrita de amadurecida capacidade narrativa (por vezes com alguns traços de pendor quase ensaístico), na sua discreta revisitação aos territórios da arte, no incisivo apontamento intimista (como no belíssimo “fragmento” Sombras), nos desfazermos facilmente da noção, possivelmente estimulada pela instâncias da crítica e encorajada pelos departamentos de marketing, de que apenas prosa de largo calado alcança valor literário. Leia-se o primeiro texto do livro. Nele se condensa, no seu diálogo com a obra de Marcel Duchamp, a partir de um “episódio” ficcionado com mestria, mais prazer de leitura que muitos romances que inundam as montras pelo natal.

A PORTA DE DUCHAMP

Quando vivia em Paris, no pequeno apartamento da rue Larrey, n.º II, Duchamp fez instalar dentro de casa uma porta que não podia estar nem aberta nem fechada porque estava sempre aberta e fechada ao mesmo tempo. Uma porta que ele abria quando a fechava (fechada mesmo aberta, como alguém disse acontecer com os livros) e que descolava da sua função de porta, como a palavra porta descola de qualquer porta se a dissermos duas vezes: uma porta-porta. A dele rodando entre dois umbrais e, por isso, incapaz de preencher um vazio sem abrir outro vazio. Duchamp tinha-a colocado ali para não esquecer que há em tudo uma parte de nada, um vão impossível de preencher sem que logo se abra outro mesmo ao lado. Mas desde então dormia mal, por causa dos gritos dessa porta, ao mesmo tempo concreta e abstracta, deslocada e infeliz como uma alegoria sem propósito. E quando não conseguia dormir, e se levantava às escuras para ir beber um copo de água, acontecia-lhe hesitar diante da sua invenção: «aberta, fechada?». Nessas alturas, se via que Duchamp ia enganar-se outra vez, a porta-porta mudava de posição e empurrava-o docemente para o lado do vazio. Além de gritar e ser didáctica, que mais pode uma porta para se fazer entender? Duchamp desaparecia então no fundo escuro da cozinha, e sempre dava consigo a pensar sem saber muito bem porquê que, talvez por estarem tão cheios de nada, os gritos da sua porta-porta lhe faziam afinal fraternamente companhia. Depois, no regresso ao quarto, hesitava novamente – «aberta, fechada?» – mas, com os braços um pouco adiante do rosto, atravessava agora o vazio a passos mais decididos.

MARTELO, Rosa Maria, “A Porta de Duchamp”, Lisboa: Averno, 2009. p. 7-8.

Marcel Duchamp, "The Bride Stripped Bare by her Bachelors, Even"