E eram tão novos…

by manuel margarido

Não estavam a queimar livros; não berravam palavras de ordem  censórias (em lugar de “não compre”, pediam para que não se lesse); não estavam zangados. Não pertenciam a grupos, juventudes, blocos, seitas. Eram novos e, com  ânimo, especaram-se no Parque das Nações, frente ao centro comercial. E diziam a quem passava: “É mentira”. Com gentileza. Uma coisa quase irreal: uma manifestação contra um livro (As profecias de Nostradamus, de Mario Reading).

Pasmei com a singularidade da coisa (é certo que uma Igreja Baptista de Penafiel organizou iniciativa pouco concorrida contra o último Saramago. Mas era iniciativa de “igreja”). Achei lindo, tão alegres e uma dúzia, fazendo pública a sua opinião. Mais bonito que manifestação de megafone contra os transgénicos. Afinal de contas, é pura poesia o acto de se pronunciar contra um transgénico literário. E eram tão novos, palavra de honra.

[Nota: a fotografia foi tomada por puro impulso, com consentimento, a partir de um telemóvel. Entrei assim, pifiamente, para o clube dos repórteres de rua. Dos péssimos, claro.]

fotografia: afa, com c.m. e a.a.

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