O Efeito World Press Photo

by manuel margarido

Fotografar um ano é uma impossibilidade logística, mesmo que nos fiquemos pelo domínio do real. (Mais arrojado seria, e porventura interessante, se alguns esforços concertados tentassem, por exemplo, fotografar o “imaginário” de um ano. Mas talvez esse fosse um trabalho improvavelmente poético e pouco comercial.)

As grandes cadeias produtoras de conteúdos já perceberam o filão que o fotojornalismo proporciona, nestas compilações. A lágrima vende e a dor atrai. A procura de “instantâneos” que retratem a pobreza, o sofrimento, o acontecimento histórico, o momento raro acaba por produzir aquilo a que me apetece chamar “O Efeito World Press Photo”: a banalização da excepcionalidade.

Nos anos recentes, porém, assiste-se a uma tendência de viragem neste tipo de escolhas. A procura de situações geradoras de solavanco sentimental fácil, tipo criancinhas a morrer de fome, tem dado lugar a critérios mais aproximados a uma realidade desemocionalizada.

© Aaron Huey / Atlas Press

Nesta fotografia retirada da galeria da Time (The Year in Pictures 2009), podemos observar a grandeza de Seattle – a cidade da Microsoft, para os mais distraídos – , a partir de um acampamento de homeless.

Não nos deixemos enganar pela palavra. Homeless, aqui, não quer dizer sem-abrigo. Significa, literalmente, sem casa.

(Nela, a ausência do elemento humano torna-o absurdamente presente. Mais presente que o próprio contraste entre o primeiro plano e a grande cidade luzente. O Rio de Janeiro, por exemplo, poderia oferecer milhares de imagens deste contraste. But damn, this is America.)