Portugal – Coreia do Norte e o sorteio.

by manuel margarido

Ontem realizou-se o sorteio dos grupos que vão disputar a fase final do Campeonato do Mundo de Futebol de onze (versão masculina), na África do Sul, em 2010. Ninguém parece ter ficado satisfeito com a nossa sorte. Cristiano Ronaldo queixa-se, Carlos Queirós diz que o primeiro jogo é decisivo (mas não são todos?); os comentadores torcem o nariz e, a esta hora, o site da FIFA aponta o “grupo” como o mais difícil, por larga margem sondada à boca do clique.

Pois eu acho o grupo lindo. Jogar contra o Brasil deveria ser encarado como uma festa, um feriado não-oficial; a Costa do Marfim surge-nos para recordar a nossa história, faceta descobridora, o pioneiro contacto de europeus com os litorais africanos para lá do Bojador, as traficâncias do ouro, do marfim, da pimenta; dos escravos. A Coreia do Norte… bem, a Coreia do Norte foi, em 1966, Inglaterra, o adversário digníssimo que permitiu à Selecção Nacional o jogo verdadeiramente épico da sua história. Em menos de nada estamos a perder 0-3. Então agiganta-se Eusébio e, com ele, uma equipa (e uma nação, colada aos rádios; e um Governo, atento à oportunidade de propaganda, ainda que em formas e modos rudimentares, pré-socráticos, digamos). O jogo, mais que o resultado final (5-3), entrou no domínio da lenda.

Agora, que vamos encontrar de novo os norte-coreanos, fixem bem os nomes de todos e cada um dos seus jogadores. Talvez daqui a dez anos estejamos a subscrever abaixo-assinados da Amnistia Internacional. Se tivermos informações suficientes para. Futebol, política, afectos, heroísmo e direitos humanos. Uma combinação rara.

Pedindo indulgência ao jornal, e ao desaforo de abuso do direito de citação, transcreve-se aqui, integralmente, o artigo de Helena Matos, no Público de 19 de Novembro. Ganhou a matéria uma luz intensa, uma pertinência nova e urgente, com o sorteio de ontem à noite. Até parecia augúrio. Chapeau, Helena Matos.

Decorem-lhes os nomes, aos rapazes da Coreia do Norte que nos defrontarão na África do Sul. Ou apontem-nos num caderno, no pc, no diário. Para memória futura.

(continuará)

Eusébio acaba de marcar um dos seus quatro golos, num jogo histórico.

O que foi feito do homem que marcou golo no primeiro minuto?

“Agora que a propósito da queda do Muro de Berlim se faz ouvir a ladainha relativista sobre os novos muros – perguntem aos presos se um muro que impede a saída é igual a um muro que impede a entrada! – é ocasião para recordarmos um dos mais brilhantes jogos efectuados pela selecção portuguesa de futebol. Aconteceu em 1966. Portugal defrontou a Coreia do Norte, cuja equipa estava ainda embalada pela euforia da vitória sobre a Itália. Portugal chegou a estar a perder por três a zero. Como não sei nada de futebol, sou incapaz de explicar o que aconteceu, mas aos meus olhos leigos nessa matéria só parece que, a partir de dado momento, a bola e Eusébio se encontravam em perfeita sintonia no caminho para a baliza dos norte-coreanos. Portugal acabou por ganhar por cinco a três. Quatro dos golos foram de Eusébio. O resto foi o que se sabe. Para Portugal, evidentemente. No livro Os Aquários de PyongYang, do historiador francês Pierre Rigoulot e do refugiado norte-coreano Kang Chol-hwan, ficamos a saber que os jogadores norte-coreanos, uma vez regressados à Coreia do Norte, pagaram caro os resultados desse jogo: alguns foram expulsos dos locais onde viviam e outros acabaram nos campos de prisioneiros. Kang Chol-hwan, que foi internado aos nove anos por o seu avô ter sido considerado reaccionário, encontrou um desses jogadores no campo de Yodok. Mais precisamente encontrou Park Seung-jin, o jogador que marcou um golo a Portugal logo no primeiro minuto de jogo. Mas o Park Seung-jin detido em Yodok destacava-se entre os outros prisioneiros não pelo poder dos remates, mas sim pela sua capacidade de vencer a fome. Comia todos os insectos que encontrava e por isso chamavam-lhe “Barata”. Ainda estava vivo, mas já muito fraco quando, em Fevereiro de 1987, Kang Chol-hwan mais o seu pai, tio, irmão e avó foram autorizados finalmente a sair de Yodok.

O que é feito de Park Seung-jin?

O destino destes jogadores ou as tragédias pessoais de alguns dos heróis desportivos dos países socialistas têm matéria q.b. para reflectir sobre a diferente natureza dos muros. Desconheço se Park Seung-jin alguma vez voltou a saltar de alegria como fez quando enfiou a bola na baliza de Portugal em 1966. Mas sei que a força do futebol foi suficiente para que alguém, em 2002, se interessasse pelo destino desta equipa e conseguisse transformá-la em matéria de documentário. Pode ser que agora a pretexto do Mundial se fale outra vez destes homens e, quem sabe, se procure confirmar os relatos de refugiados norte-coreanos e declarações do Governo japonês que dão conta de raptos de mulheres em Macau pelos serviços norte-coreanos que usavam esta mirabolante técnica para, entre outras coisas, arranjarem professoras de línguas. Estes raptos tiveram lugar num tempo em que Macau era administrado por Portugal e até agora o desinteresse que os rodeia é para mim tão inexplicável quanto aquela revirvolta no resultado do Portugal-Coreia do Norte de 1966″

Helena Matos, in Público n.º 7170, 19 de Novembro de 2009