Novos Poetas (46) – Rui Almeida

by manuel margarido

Ainda o lançamento, em Lisboa, na Livraria Trama, do sexto número da Callema, em animada noite de Verão, de amena informalidade e alguma paródia. No que à poesia respeita, publicam-se trabalhos de Rui Almeida (um dos pândegos daquela noite), Fernando Silva e do poeta turco Orhan Veli, pela primeira vez trazido à língua portuguesa

Destaquei um poema de Rui Almeida (n. 1972), primeiro vencedor do “Prémio de Poesia Manuel Alegre” (2008) com o livro Lábio Cortado, recentemente editado na Livrododia (que pena aquela capa) e já comentado aqui por Henrique Fialho, e também aqui por Nuno Dempster. Rui Almeida é, de resto, autor de um blogue, Poesia Distribuída na Rua, de fazer inveja aos maiores e melhores sítios divulgadores de poesia online. (Fora da rede nem se fala.)

Mas pelo poema publicado na Callema (antecedido de nove outros, do mesmo autor, numa sequência apenas aparentemente fragmentária) se fica, pelo seu rigor formal, contenção imagética e tom delicadamente aforístico, tão contundente como o metafórico murro que nele irrompe.

[DEZ PECADINHOS MORTAIS AO ACASO]


Suavíssimos pretextos para nada;

O medo de ouvir falar do vento;

O avanço das armas escondidas;

Os tesouros perdidos frontalmente;

Sinceridades sem razão de ser;

A violência de conter o murro;

Segredos que se dizem sem ouvidos;

Os silêncios que mascaram as sombras;

O vil excesso de um pão sem fome;

As palavras escritas com maiúsculas.

Almeida, Rui, in Revista Callema, n.º06, p. 14. Maio de 2009

"White Man" © M, Olhares, fotografia online (d.r.)