Ruy Belo — «Segunda Infância»

by manuel margarido

Ainda e de novo Ruy Belo. Ainda o seu primeiro livro, Aquele Grande Rio Eufrates, datado de 1961. Ainda o tema do “regresso, como é tão bem sugerido, a propósito deste poema, num surpreendente ensaio de Henrique Manuel Bento Fialho (Ruy Belo: uma aldeia que não existe), analítico e emotivo em simultâneo, com um pé fora de uma leitura excessivamente académica. Na Agulha, revista brasileira  de cultura (São Paulo). Em lendo o poema, leia-se o que Henrique Fialho escreve. Um outro olhar ajuda.

SEGUNDA INFÂNCIA

À tua palavra me acolho lá onde

o dia começa e o corpo nos renasce

Regresso recém-nascido ao teu regaço

minha mais funda infância meu paul

Voltam de novo as folhas para as árvores

e nunca as lágrimas deixaram os olhos

Nem houve céus forrados sobre as horas

nem míseras ideias de cotim

despovoaram alegres tardes de pássaros

O sol continua a ser o único

acontecimento importante da rua

Eu passo mas não peço às árvores

coração para além dos frutos

Tu és ainda o maior dos mares

e embrulho-me na voz com que desdobras

o inumerável número dos dias

BELO, Ruy, Obra Poética, vol. 1 [Aquele Grande Rio Eufrates], (1.ª Ed.)  – Presença, Lisboa, 1981.

© Duarte Belo (d.r.)

© Duarte Belo (d.r.)