Erik Satie – Memória de um Amnésico

by manuel margarido

Não se fará aqui nota biográfica de Erik Satie (1866 – 1925), cujas ligações enciclopédicas (wikipedia) em língua inglesa e francesa são suficientes para se poder ter uma ideia geral da iconoclastia, vanguardismo e concomitante ostracismo a que foi votado o compositor em tumultuosa vida, esmagado pela sombra de Ravel e de Debussy. Estimadíssima haveria de ser, com o tempo, a sua música. Dá-se conta, isso sim, da obra escrita que deixou, a partir de «fragmentos» publicados na revista S.I.M. (Societé Internationale de Musique), com o delicioso título «Memória de um Amnésico», felizmente publicada em língua portuguesa (e provavelmente esgotada). Fica, então, um fragmento de um «fragmento», escrito em 1918. Impagável.

VIII

ELOGIO DOS CRÍTICOS

Não escolhi este tema por acaso, escolhi-o por me sentir reconhecido. Porque estou, de facto, tão reconhecido como reconhecível.

O ano passado fiz várias conferências sobre «A Inteligência e da Musicalidade nos Animais».

Hoje vou falar-vos «Da Inteligência e da Musicalidade nos Críticos». O tema é quase o mesmo mas com modificações, bem entendido.

Amigos meus disseram-me que era um tema ingrato. Ingrato, porquê? Não há nele ingratidão nenhuma; pelo menos, eu não vejo onde nos agarrarmos para dizer isso. Vou pois fazer, sereno, o elogio dos críticos.

Não conhecemos suficientemente os críticos; ignoramos o que fizeram, o que são capazes de fazer. Numa palavra, são tão desconhecidos como os animais, embora tenham, como eles, a sua utilidade. Sim.

Não são apenas os criadores da Arte Crítica, que é Mestra de Todas as Artes, mas os primeiros pensadores do mundo, os livres pensadores mundanos se assim podemos chamar-lhes.

De resto, foi um crítico quem posou para o Pensador de Rodin. Eu soube-o há quinze dias, o máximo três semanas, por um crítico. O que me deu prazer, muito prazer. Rodin tinha um fraco, um grande fraco pelos críticos… Os seus conselhos eram-lhe caros, muito caros, demasiado caros, acima de qualquer preço.

Há três espécies de críticos: os importantes; os que são menos; os que não são nada. As duas últimas espécies não existem: são todos importantes…

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SATIE, Erik, Memória de um Amnésico , Selecção, tradução, cronologia e notas de Alberto Nunes Sampaio, ‘colecção memória do abismo’, Hiena, Lisboa, 1992.