Novos Poetas (45) – Luís Filipe Parrado

by manuel margarido

Com a saída do seu terceiro número, percebe-se com alguma nitidez que a revista de poesia “criatura” está num ponto em que precisa de um golpe de asa, sob pena de, em breve, ficar num limbo em que autores, linguagens e estéticas se repetem e encerram sobre si, caminho excelente se der origem a um casulo; uma pena se gerar apenas um novelo. Assinala-se a presença de dois autores espanhóis (Ben Clark e Elena Medel), convenientemente traduzidos (colocando uma questão editorial: por que razão se lhes apresenta uma pequena nota biobibliográfica, quando nenhum dos outros autores portugueses a merece? Serão assim tão conhecidos? Inversamente, serão excessivamente modestos por junto?). O conjunto de seis poemas de Luís Filipe Parrado surje, no conjunto, enxuto nos recursos, certeiro na amplitude e com uma contundência desemocionalizada. Luís Filipe Parrado é, aqui, ‘categorizado’ como novo, não pela sua idade, mas no sentido em que, por não ter atingido a sua obra um conhecimento público suficiente notório, não evitamos deixar de o ler com a atenção devida ante a ‘novidade‘.

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR


Naquele tempo o meu pai trabalhava

por turnos

como herói socialista

no sector siderúrgico

e dormia com a minhamãe.

A minha mãe esfregava

a sarja encardida:

a água ficava da cor da ferrugem.

Havia, por perto, um cão

esgalgado,

sempre a rondar.

Depois a minha irmã nasceu

e eu fui obrigado

a rever a minha mitologia privada do caos.

Entre uma coisa e outra

aprendia mentir.

E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

PARRADO, Luís Filipe, criatura n.º 3, p. 119, Abril de 2009

'moldando o ferro' © Ricardo Barros, Olhares, Fotografia Online

'moldando o ferro' © Ricardo Barros, Olhares, Fotografia Online