Thomas Schittek – Experimentar ser feliz

by manuel margarido

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Thomas Schittek - "Columbeira Portugal. S/T. Aguarela sobre Papel. (2008)

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A obra de Thomas Schittek, pintor alemão há muitos anos radicado em Portugal, inscreve-se numa corrente pessoal, que atravessa paralelamente a arte contemporânea, dela se distanciando pela recusa de um discurso meta-referencial, dela se aproximando pelo necessário questionamento da sua leitura. De facto, Thomas Schittek parte de uma metodologia de trabalho onde o fundamento, o desenho, é objecto de sistematização extrema, num registo quase arquivístico,  evoluindo para a tela, em diferentes técnicas que utiliza de acordo com os objectivos expressivos pretendidos – pastel, aguarela, óleo sobre tela; e o azulejo, trabalho de fogo que o pintor tão intensamente domina, não se limitando à pintura, mas operando todo o processo da sua produção artesanal.
É nesta relação com a primordialidade que se pode encontrar uma das possibilidades de leitura da obra deste artista plástico. Tendo como grelha fundadora um universo de referências clássico – os elementos naturalistas, a paisagem, a figuração, Schittek aproxima-se, lentamente (e em toda a obra do autor a lentidão tem um carácter determinante) dos elementos formais mais elementares, num processo ‘regressivo’ em que a geometrização básica, o cromatismo e a coloratura nos transportam para o domínio da fruição da infância, e convidam ao mais primitivo dos olhares: aquele que, maravilhando-se, se interroga.
Estamos claramente no território do prazer de quem cria transportado para o desafio do prazer de quem se apropria. Pintura solar, portanto, mesmo quando atravessada por períodos de tonalidades mais obscuras. Pintura (e azulejaria) de um artista que, num movimento tão característico na história da arte, descobre no Sul os fundamentos da sua obra. Não por acaso, em Schittek dominam as temáticas relacionadas com o mar, a terra, o sol, recorrentemente utilizando  o grande formato. Para uma criança também uma folha de papel é enorme. Progressivamente, o pintor tem-se aproximado de uma figuração mais definida, num percurso de uma coerência alegremente sacudida pela capacidade de reformulação e exploração constantes. De novo o pintor revela até que ponto se permite regressar a uma possível infância.

Situamo-nos, em consequência, perante uma obra marcada pela procura, não conceptualizada mas ‘encontrada’, de um tempo. O tempo de ser feliz. Movimentando-se num campo de linguagem pictórica muito mais amplo que os contemporâneos, fundado na tradição e possuindo o desejo de espanto característico dos modernos, a obra de Thomas Schittek gera espontaneamente um desejo primeiro: experimentar ser feliz.

[Um núcleo de obras de Thomas Schittek pode ser apreciado em Lisboa, numa individual de Escultura e Pintura, na Galeria do Hospital de Santa Maria – CHLN]

Thomas Schittek - Columbeira, Portugal. S/T. Óleo sobre tela.

Thomas Schittek - Columbeira, Portugal. S/T. Óleo sobre tela. (2004)

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