Votar…

by manuel margarido

(ao João Miguel)

Esta foi a minha primeira ‘Eleição’. Em 1975 votava-se pela primeira vez em Portugal em sufrágio democrático directo e universal, a Eleição da Assembleia Constituinte.  Exactamente um ano depois do 25 de Abril apresentavam-se ao escrutínio um PS de punho fechado, o que arrebanhou mais votos, um PCP sem medo de mostrar a foice e o martelo (e com grandes expectativas, estrondosamente defraudadas), um PPD que surpreenderia; um CDS ainda ostracizado; e o PPM, reminiscência de correntes que conseguiram sair do Estado Novo com um estatuto democrático aceitável.  Ah, e meia-dúzia de partidos à esquerda do PCP que faziam um barulho dos diabos (onde andarão, hoje, os Pupes, os Féque éme-éles?). Este foi o acto eleitoral fundador da nossa democracia representativa. A intensidade com que se viveu o dia viria a ter poucos paralelos, ou sequer aproximações, no futuro.

Tinha acabado de fazer 13 anos. Estive à frente da televisão até depois da meia-noite para saber resultados concretos (com o Joaquim Letria imperturbável, rosto perfeito de bonomia, perante tanta ansiedade.) Cheio de inveja do meu entusiasmado pai, que podia votar, acompanhei-o, esperei com ele nas filas imensas de gente que aguardava o seu momento (hoje acompanhei-o de novo, quase o empurrando, não queria, “isto desilude-me”). Hoje acompanhei o meu filho a votar pela primeira vez, com a serenidade e solenidade da sua ‘primeira vez’. E senti, (juro que consegui) um breve golpe da adrenalina. Mesmo sem multidões; mesmo sem filas; mesmo com cidadãos nas mesas de voto que são pagos para prestarem um serviço cívico; mesmo com cidadãos a votar com a expressão de quem ‘fui ali comprar pão e já volto.’

[Nota: a imagem foi retirada, sem pedido de licença e com muito agradecimento, do blogue Pré-História.]

'O mais à direita é do Centro'

'O mais à direita é do Centro'

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