Poesia Portuguesa (35) – Carlos de Oliveira

by manuel margarido

Carlos de Oliveira escritor e poeta ‘neo-realista’? Os rótulos, os rótulos. Também se pode afirmar que os dentes não são matéria erótica. Também é uma questão de rótulos!


Dentes

Os dentes, porque são dentes,

iniciais. Na espuma,

porque não são saliva

estas ondas

pouco mordentes; este

sal que sobe quase

doce; donde?


Numa espécie

de fogo: amor é fogo

que arde sem se ver;

porque não é

de facto fogo este frio aceso;

da saliva à lava

passa pela espuma.


Só os dentes.

Duros, ácidos, concentram-se

tacteando a pele,

tatuando signos sempre

moventes

de fúria. Mordida

a pele cintila; espelho

dos dentes, do seu esmalte voraz;

suavemente.

OLIVEIRA, Carlos de, Trabalho Poético, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 2003 (Obra reunida, o poema foi publicado originalmente em Pastoral, 1977)

'Boca de canela na boca.' © Isabela Daguer, Olhares, Fotografia Online

'Boca de canela na boca.' © Isabela Daguer, Olhares, Fotografia Online


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