Guiné-Bissau – golpe de Estado?

by manuel margarido

Lembram-se do sonho de Amilcar Cabral? Lembra-se da clivagem, quase instantânea, entre os cabo-verdianos e os guineenses após a independência? Na pobreza, Cabo-Verde foi traçando um rumo; na pobreza, a Guiné-Bissau deixou-se aprisionar pelos seus ‘demónios’: uma sociedade multiétnica, multi-cultural, com enormes diversidades religiosas, linguísticas, sociológicas. Em comum, uma cultura guerreira ancestral, que os portugueses experimentaram na carne (era declaradamente o teatro de guerra já perdido, quando se deu o 25 de Abril). Sem uma estratégia unificada, sujeita aos cabos de guerra, às alianças de ocasião com o Senegal, a Guiné-Conacry, absolutamente dependente do apoio externo, incapaz de organizar um aparelho de Estado mínimo, à Guiné-Bissau estava guardada a última das armadilhas: ser plataforma de tráfico massivo de droga (os colombianos passeiam-se em Bissau como os cowboys no antigo Oeste). Esta circunstância excitou ambições, desvendou cobiças e fez as armas sairem dos quarteis, das aldeias, das casas. Neste momento mata-se na Guiné- Bissau. Esta madrugada foram cinco, entre eles um antigo primeiro-ministro, um antigo ministro da Defesa e um candidato presidencial. Mata-se para alcançar ou manter o poder. Um poder espúrio, é certo. Mas lucrativo. Se eu fosse um guineense decente – ou corajosamente cobarde, emigrava já. Para um lugar mais civilizado. Para Nápoles, por exemplo.

© RTP [D.R.]

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