As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Guiné-Bissau – golpe de Estado?

Lembram-se do sonho de Amilcar Cabral? Lembra-se da clivagem, quase instantânea, entre os cabo-verdianos e os guineenses após a independência? Na pobreza, Cabo-Verde foi traçando um rumo; na pobreza, a Guiné-Bissau deixou-se aprisionar pelos seus ‘demónios’: uma sociedade multiétnica, multi-cultural, com enormes diversidades religiosas, linguísticas, sociológicas. Em comum, uma cultura guerreira ancestral, que os portugueses experimentaram na carne (era declaradamente o teatro de guerra já perdido, quando se deu o 25 de Abril). Sem uma estratégia unificada, sujeita aos cabos de guerra, às alianças de ocasião com o Senegal, a Guiné-Conacry, absolutamente dependente do apoio externo, incapaz de organizar um aparelho de Estado mínimo, à Guiné-Bissau estava guardada a última das armadilhas: ser plataforma de tráfico massivo de droga (os colombianos passeiam-se em Bissau como os cowboys no antigo Oeste). Esta circunstância excitou ambições, desvendou cobiças e fez as armas sairem dos quarteis, das aldeias, das casas. Neste momento mata-se na Guiné- Bissau. Esta madrugada foram cinco, entre eles um antigo primeiro-ministro, um antigo ministro da Defesa e um candidato presidencial. Mata-se para alcançar ou manter o poder. Um poder espúrio, é certo. Mas lucrativo. Se eu fosse um guineense decente – ou corajosamente cobarde, emigrava já. Para um lugar mais civilizado. Para Nápoles, por exemplo.

© RTP [D.R.]

© RTP

Manter o inimigo à vista

“Uma das maiores subtilezas da arte militar é nunca levar o inimigo ao desespero” – Montaigne


Em Rafah, militantes do Hamas observam o discurso de Barack Obama, ontem, no Cairo.

Em Rafah, militantes do Hamas observam o discurso de Barack Obama, ontem, no Cairo.

Poesia Portuguesa (35) – Carlos de Oliveira

Carlos de Oliveira escritor e poeta ‘neo-realista’? Os rótulos, os rótulos. Também se pode afirmar que os dentes não são matéria erótica. Também é uma questão de rótulos!


Dentes

Os dentes, porque são dentes,

iniciais. Na espuma,

porque não são saliva

estas ondas

pouco mordentes; este

sal que sobe quase

doce; donde?


Numa espécie

de fogo: amor é fogo

que arde sem se ver;

porque não é

de facto fogo este frio aceso;

da saliva à lava

passa pela espuma.


Só os dentes.

Duros, ácidos, concentram-se

tacteando a pele,

tatuando signos sempre

moventes

de fúria. Mordida

a pele cintila; espelho

dos dentes, do seu esmalte voraz;

suavemente.

OLIVEIRA, Carlos de, Trabalho Poético, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 2003 (Obra reunida, o poema foi publicado originalmente em Pastoral, 1977)

'Boca de canela na boca.' © Isabela Daguer, Olhares, Fotografia Online

'Boca de canela na boca.' © Isabela Daguer, Olhares, Fotografia Online