As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Maio, 2009

Mário-Henrique Leiria – Contos do Gin-Tonic

Sendo sexta-feira, desanuvie-se com a imparável verve de Mário-Henrique Leiria, escritor ligado ao movimento surrealista, activista político do ‘reviralho’, exilado, editor, e tudo e tudo. Publica a sua obra mais conhecida Contos do Gin-Tonic em 1973, na Editorial Estampa. Lamento apenas ter a 3.ª edição, de 1976. A capa da primeira era muito bonita! [Ocorre-me uma pergunta… se um escritor de nomeada publicasse este poema amanhã, na terceira página do Público, ou do Expresso – fosse impossivelmente o Lobo Antunes ou o Saramago e o impacto seria maior – como reagiriam os homens que temos no poder? Nos tempos que correm, as susceptibilidades parecem-me roçar a intolerância. E anda por aí muito medo.]


GIN SEM TÓNICA

Uma garrafa de gin

estava a preocupar

o pescador

a garoupa e o rodovalho

não tinham aparecido

pró jantar

que fazer?

telefonou ao ministro

da Pesca e do Trabalho

mas o ministro

estava a trabalhar na cama

com a mulher

foi então

que a garrafa de gin

sugeriu discretamente

porque não

telefonar ao presidente?

telefonaram

o presidente da nação

estava em acção

na cama

com a mulher

nessa altura

até que enfim

encontraram a solução

o pescador

foi para a cama

com a garrafa de gin

LEIRIA, Mário-Henrique, Contos do Gin-Tonic, 3.ª edição, Editorial Estampa, 1976.

Savador Dali. Frame do storyboard do filme 'Destino' © Walt Disney Pictures

Savador Dalí. Frame do storyboard do filme 'Destino' © Walt Disney Pictures

(clique para ampliar)

Ruy Belo – Coisas de Silêncio

Impresso na Guide-Artes Gráficas, Lda. (com um fabuloso preto e branco que só a técnica de impressão de retícula estocástica permite), em Junho de 2000 a editora Assírio & Alvim dava à estampa ‘Ruy Belo – Coisas de Silêncio‘, livro onde a fotografia de Duarte Belo fixa o ‘mundo’ de seu pai, Ruy Belo. Estamos no lado oposto ao da fotobiografia. Duarte Belo capta ‘momentos’ – correspondentes à estrutura do livro – definidos textualmente pelos autores, (o fotógrafo e Duarte Belo): «O primeiro momento representa alguns lugares que foram habitados por Ruy Belo e que muitas vezes surgem nos seus versos»; (…) «Num segundo momento, passamos o nosso olhar por alguns objectos do quotidiano de Ruy Belo»; (…) «Depois, há um terceiro e último momento de alguns rostos de identidade de Ruy Belo».

Duarte Belo fotografa, com um grande sentido do discreto, uma ausência. E é essa ausência que confere à obra intensa espessura e um sentido de perda, de desolação se instala. Acompanhadas por excertos da obra do poeta, e um texto de Manuel Gusmão, “Para a Dedicação de um Homem – Algumas variações em resposta à poesia de Ruy Belo“, é contudo, o texto de Luís Miguel Cintra, que abre o livro, a melhor leitura para o indizível que estas fotografias encerram. O seu silêncio povoado de sombras.

[O livro foi reeditado em tempos recentes, em edição de capa dura. A minha sugestão para a Feira do Livro de Lisboa, este ano]

Reconhecemo-nos ainda. Gostamos do mar e da terra a céu aberto. Árvores, searas, pedras, montes. Da praia. Dos campos. Das igrejas. Das aldeias e das cidades com passado e com ruas muito grandes. Dos textos antigos. De cartas e postais. E dos livros. E do povo. Das procissões. Dos cafés. Do cemitério. De ir ao cinema. Ler o jornal. Mozart e Bach. Não sabemos pôr gravata. Ainda temos camisas aos quadrados e vestimos camisola. Não gostamos da manha e da astúcia. Somos pobres. Temos o sol e só o que nos toca o coração. Alguns amigos mais. E carregamos nos ombros o amor da vida toda e uma enorme saudade de Deus. Somos católicos. Acreditamos na alegria e na pureza. Sabemos que o homem é Deus feito carne.

Reconhecemo-nos. Somos assim generosos, é verdade. Sem esforço. E não vamos mudar. Não sei se somos um grupo nem seremos com certeza uma geração, somos uma maneira de ser. E na poesia do Ruy nos encontramos.

Sou e quero ser irmão ou herdeiro dessa gente. Como o Duarte, legitimamente. E reconheço nas fotografias do Duarte, como na poesia do Ruy, a passagem das nossas vidas, os lugares, as nossas casas, os objectos a que nos afeiçoámos ou demos sentido, a memória dos nossos corpos, dos nossos encontros, dos nossos grandes amores ou da nossa paixão. A minha casa. Reconheço também o meu pai. Mas reconheço sobretudo o espaço. Ou o tempo. «O Tempo Sim o Tempo Porventura». Estas fotografias, o seu pudor, são o retrato de uma ausência. São fotografias da morte. Violentas. O que resta de um cidadão, a mudança das idades, as coisas que tinha, os lugares onde esteve ou onde estava, a roupa que vestiu, o que ficou do que escreveu. São o retrato do tempo que foge, imenso. Mas mais ainda, tanto, o retrato do que falta. Falta a vida neste vazio, neste espaço que vai da terra ao céu. E esse espaço, esse vazio, é exactamente o espaço das palavras do Ruy. O espaço do que vive. Perante a morte, constantemente, nesse único momento que se confunde com a solidão mas abraça o mundo inteiro e que nos dá a nós a dimensão da vida. Tão imensa diante do tempo que talvez nem na paixão possa encontrar a sua desejada desmedida. Tão grande que convoca Deus. E já não sabemos de que ausência falamos.

LUÍS MIGUEL CINTRA

 © Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]

© Duarte Belo, Assírio & Alvim [D.R.]


CR7

Um homem não é um sigla

e contudo inspira

e tudo se concentra

a trinta e cinco jardas da baliza

uma explosão

incendeia

o ar  mais que o olhar

condensa.

Cristiano Ronaldo prepara a marcação do segundo golo do Man United

Cristiano Ronaldo prepara a marcação do segundo golo do Man United © Tom Jenkins, The Guardian

(clique para ampliar)

Sara Tavares lança ‘Xinti’

No próximo dia 11 é lançado ‘Xinti‘, o novo disco de Sara Tavares, depois de ‘Balancê‘ (2005). Vocacionado para o mercado da “world music“, encerra – a avaliar pelo primeiro tema disponível no You Tube, ‘Ponto de Luz‘ – as marcas distintivas de uma cantora que faz a sua obra tendo um horizonte bem mais largo que o êxito comercial. Leia-se a propósito o artigo de João Bonifácio na ‘Ípsilon online‘. Por mim acrescento que muito agradeço a miscigenação na sociedade portuguesa.


Poesia Portuguesa (32) – Ruy Belo

Era o Verão de 1980, a memória pode trair, lembro-me de, tão puto, acabar a vender polvos aos restaurantes de Peniche para comprar o bilhete de regresso a Lisboa; mas não era o volume 2 da ‘Obra Poética de Ruy Belo‘, da Presença – organização e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães –  que teria comigo (o primeiro tinha, de certeza), nessas férias de revelações. ‘Transporte no Tempo’ estava lá, comigo, mas na edição da Moraes, que terei guardado num de três lugares, sendo um outro possível, um empréstimo perpétuo. Na introdução ao livro, Ruy Belo escreve um texto, ‘Breve Programa para Uma Iniciação ao Canto‘, onde a indizível condição da mortalidade (do ‘não pertencer a este mundo’) se inscreve com um carácter quase premonitório, quase programático. Termina assim, o texto: “(…) O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da auto-biografia, tentou a todo o custo evitar a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou aprender com as palavras, finalmente disponível não já tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.” Leia-se este terceiro poema da sequência ‘Monte Abraão’ à luz do ‘programa’ enunciado.

SÚPLICA


O outono demorou-se no mundo

A juventude há muito despediu

a primavera da primeira ave

Respiro as lágrimas das raparigas

recordo-me do seu odor nocturno

Escuto o movimento lento da ramada

esqueci a escada habitual do dia-a-dia

a cortina da chuva corre-se de novo

Nesta manhã de outono aluviões   da vida

murmuram-nos mulheres minuciosas

O ombro da colina ergue o nevoeiro

na madrugada não cantam melros

A areia bebe cheia a chuva enquanto

nós infinitamente nos distanciamos

de quanto – diz a santa – desejamos

Aonde está a mãe da minha infância?

Talvez com ela tudo começasse

É nos fins do verão alguém morreu

foi-se a ferocidade das cigarras

no caminho das tílias percorridas

Deixo cair as mãos pois nem me restam essas

aves do mar que a tempestade impele

em tempo de equinócio para a costa

É o cabo do mundo é o fim do ano

a era da perfeita culpabilidade

Respiro já os meus últimos dias

Sobre este céu nenhuma ave adeja

Que a terra humedecida me proteja

Ruy Belo, in Transporte no Tempo, p. 14-15, Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, Lisboa, 1981.

© Duarte Belo

© Duarte Belo

Poesia Portuguesa (31) – Ruy Belo

E chego ao poeta onde para mim tudo começou. Aos 16 anos, em Peniche, os dois primeiros volumes da ‘Obra Poética’, editados pela Presença. Na praia, dividia o tempo entre o fascínio predador e físico da pesca aos polvos com a leitura compulsiva de Ruy Belo. Experiências que marcam a vida; a segunda mudou-a, muito mais que eu possa imaginar, ainda hoje. Era Julho, as férias eternizavam-se, a pele coloria. Quando chego a Lisboa, um tio meu, médico, que privara com o poeta e me convidara a descobri-lo, diz: “Olha, morreu o Ruy Belo. Já estava muito mal. Via-se que ia acabar mal.

Acabou indo ao encontro que o abismava.

A escolha deste poema, deste livro, não é casual. Se os primeiros livros me tocaram profundamente pela dilemática entre a fé e o seu progressivo questionamento, já ‘Transporte no Tempo’ se anunciava como o prenúncio anunciado daquela que foi, digo, a maior interlocutora do escritor: a morte. Inicia-se com a sequência Monte Abraão, contendo 11 poemas e um texto. Monte Abraão onde vivia, deploravelmente ‘destacado’ para o ensino secundário nocturno. (Na memória o belíssimo ‘Ruy Belo – Coisas do Silêncio’, com fotografias do seu filho Duarte Belo, de uma intimidade quase impossível (organização de Rute Figueiredo), onde se pode ver o casario suburbano no qual Ruy Belo vivia. E um texto de introdução de Luís Miguel Cintra que, palavra de honra, hei-de colocar aqui.)

MONTE ABRAÃO


Ao Senhor Joaquim Baltasar,

banheiro da Senhora da Guia


O pessimismo de Antero é mais alegre

que o seu optimismo e a sua fé mais

desoladora que a sua descrença.

Fernando Pessoa


ENTERRO SOB O SOL

Era a calma do mar naquele olhar

Ela era semelhante a uma manhã

teria a juventude de um mineral

Passava por vezes pelas ruas

e as ruas uma a uma eram reais

Era o cume da esperança: eternizava

cada uma das coisas que tocava

Mas hoje é tudo como um fruto de setembro

ó meu jardim sujeito à invernia

A aurora da cólera desponta

já não sei da idade do amor

Só me resta colher as uvas do castigo

Sou um alucinado pela sede

Caminho pela areia dêem-me um

enterro sob o sol enterro de água

Ruy Belo, in Transporte no Tempo, p. 13, Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, Lisboa, 1981.

© Duarte Belo

© Duarte Belo

As ideias e o dinheiro

Enquanto o Governo Federal dos E.U.A. injecta ‘ziliões’ na indústria automóvel, há quem apresente ideias. Que tal investir dinheiro apenas se houver ideias?

i-REAL, 'concept car' da Toyota, apresentado na Auto Shanghai 2009.

i-REAL, 'concept car' da Toyota, apresentado na Auto Shangai 2009.

(clique para ampliar)

Novos Poetas (43) – Bruno Sousa Villar

Saltando de sala em sala no casarão da blogosfera, detenho-me numa delas, lugar de largo calibre. No blogue Nómada Onírico, Bruno Sousa Villar (‘micro-empresário, tradutor‘, as informações que consegui reunir) tem vindo a publicar, desde Janeiro de 2007, poesia própria. Os poemas mais recentes, todos sob o tag ‘O Canto Nómada’ (referência a Chatwin?) revelam um poeta que não deve ser ignorado. Desconheço se Bruno Sousa Villar tem obra publicada. O trabalho já incorporado no blogue – e também presente em redes sociais ligadas à literatura – justificá-lo-ia plenamente. Visitem o blogue referido, se faz favor.

Imolação


Disseste que quando

ardias em silêncio



ardias por protesto



confesso que no momento

não compreendi a razão



mas verifiquei que quando

começam a falar há muitas

pessoas tão caladas



Estavas

mais que certo



agora comigo

a alargar-te

as costas

ardes em silêncio



continuas a travar

essa luta inglória

de até conseguir

que se diga o que se diz


Bruno Sousa Villar → in Nómada Onírico (blogue), ‘O Canto Nómada’, 29 de Abril. 2009 [D. R.]

Boca de Fogo #3 © Ricardo Sá, Olhares, Fotografia Online [de "Boca de Fogo", pelo EntretantoTeatro]Boca de Fogo #3 © Ricardo Sá, Olhares, Fotografia Online [“Boca de Fogo”, EntretantoTeatro]

A agressão a Vital Moreira e a estupidez de Canas

Vital Moreira foi agredido na manifestação do 1.º de Maio organizada pela CGTP. Uma estupidez grave: Vital Moreira, goste-se ou não, merece respeito. Como constitucionalista e parlamentar (brilhante) foi um dos ‘founding fathers‘ da Democracia representativa; a Manifestação do 1.º de Maio, goste-se ou não, merece respeito. Resulta de mais de um século de lutas por direitos que hoje consideramos fundamentais (Em 1875 o horário de trabalho diário de um trabalhador rural ou industrial media-se entre as 12 e as 16 horas diárias. Por exemplo.) Quem agrediu Vital Moreira não tem memória. Nem respeito. Terá sido coisa de arruaceiros, alterados ou gente doente. Mas seguramente um acto isolado e espontâneo. Dito isto, as declarações de Vitalino Canas, que leio no ‘Público online‘, são de uma desonestidade moral e política chocante. Afirmar que o sucedido é “o resultado do “ódio” instigado pelos comunistas e pela Intersindical ao longo desta legislatura. “A CGTP e o PCP criaram, durante esta legislatura, um ambiente de ódio. E este acontecimento foi a expressão desse ódio que foi sendo gerado contra o PSé entrar numa lógica de vitimização e procura de um clima de martiriologia que começa a parecer a gramática eleitoral de Sócrates e do PS. Uma estupidez nunca vem só. ‘L’ordure attire l’ordure.’

'O Canas é Socialista. E burro!'

'O Canas é Socialista. E burro!'