Poesia Portuguesa (34) – Natália Correia

by manuel margarido

Em 1975 Natália Correia fazia da sua arte poética arma de combate, objecto de arremesso. Nunca deixara de o ter feito; nunca deixaria de o fazer, de resto. Mas a sua inclinação para o jocoso, o paródico, fundada na tradição setecentista (que ela tanto amava) ganha, em alguma da sua poesia ‘cuspida’, um território indisputado. Como tudo parecia tão miseravelmente sério quando a Natália escrevia assim; como tudo permanece tão actual neste poema, no início de um ciclo eleitoral, mais de três décadas depois.

[Nota: o poema que aqui se publica, é antecedido por um excerto de um texto incluído no mesmo livro, que ajudará a contextualizar melhor a reflexão da autora sobre esta poesia aparentemente ‘fácil’. Haverá possivelmente uma gralha de pontuação entre as palavras ‘crocodilo’ e ‘chega’, mas transcreve-se como está impresso.]

«Se por vezes a minha poesia retrocede para cuspir algumas pérolas na face dos tiranos não é que me comovam os ademanes de chuva dos oprimidos. As minhas causas são humanas, tão humanas quanto a recordação do homem não ser uma pausa de sangue na noite escamosa de um crocodilo chega até onde a palavra liberdade o estende num tempo sem medida.»

A POLÍTICA DO DIA

Hoje a vida tem o sorriso

dentífrico dos candidatos

e pelas ruas nos aponta

o céu, em múltiplos retratos.


céu não póstumo ou merecido

em cruel sala de espera

mas entre parêntesis de fogo

festiva véspera de guerra


Teor de montras a vida

com democrático humor

a todos deixa viver

a sua dose de flor


Publicitária a vida faz

sua campanha eleitoral

prato de vida apetitosa

temperada com humano sal


Televisor férias de verão

tira a vida do seu discurso

e um amor provençal

que nos domestica o urso


Popular a vida é toda

pétalas de apertos de mão.

Que meus versos me vinguem

de cair nesse alçapão!

CORREIA, Natália, Poemas a Rebate – colecção poesia século XX, 1.ª edição, Edições Dom Quixote, 1975.

Artur Bual - 'Natália Correia', óleo sobre tela

Artur Bual - 'Natália Correia', óleo sobre tela

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