Poesia Portuguesa (33) – Gil Nozes de Carvalho

by manuel margarido

Em 1985 a saudosa Na Regra do Jogo publicava, na sua colecção inverso (na qual não haveria um único título que não fosse excelente), Aboiz, de Gil Nozes de Carvalho, então no início do seu reservado trabalho poético (anteriormente havia publicado Alba (1982); Palmeiras (1983) e Basilisco (1984), este com a artista plástica Marta Wengorovius).

Um trabalho de rigor, depuração, procura aturada de uma voz que se transmitia por processos mínimos, enigmáticos, com uma individualidade que ‘isolava’ o autor e autonomizava a sua poética de outras contemporâneas. Curiosa, a nota de leitura (recensão) de Joana Varela para os serviços competentes da F.C.G.. De Aboiz se deixam aqui os dois primeiros poemas.


LUCANUS CERVUS



A tua boca

é uma curta espera do mundo,

esconde, dos fenómenos, a escada.

O teu voo

outra vez entre imagens uma certa

espera que finda

*

CERTEZAS DO TEMPO



Foi de uma colina obscena que viemos,

no dia se esconde o dedo, nascemos.

Deste caminho, só o hálito

não serve aos mortos. E a recompensa,

a tua vida, quando entra

na casa e, rápido cheiro, apodrece.

Também eu propus o estrangulamento,

que o corpo ficasse fora das muralhas,

no ar

qual bule ardido.

CARVALHO, Gil Nozes de, Aboiz – colecção inverso, 1.ª edição, Na Regra do Jogo, 1985.

[Nota: Aboiz: (boiz) (í)

s. f.
Armadilha para pássaros.
Fig. Engano, cilada.]
 Inside The Cage Inside The Cage © Tiago Marques, Olhares, Fotografia Online

Inside The Cage Inside The Cage © Tiago Marques, Olhares, Fotografia Online