Poesia Portuguesa (32) – Ruy Belo

by manuel margarido

Era o Verão de 1980, a memória pode trair, lembro-me de, tão puto, acabar a vender polvos aos restaurantes de Peniche para comprar o bilhete de regresso a Lisboa; mas não era o volume 2 da ‘Obra Poética de Ruy Belo‘, da Presença – organização e posfácio de Joaquim Manuel Magalhães –  que teria comigo (o primeiro tinha, de certeza), nessas férias de revelações. ‘Transporte no Tempo’ estava lá, comigo, mas na edição da Moraes, que terei guardado num de três lugares, sendo um outro possível, um empréstimo perpétuo. Na introdução ao livro, Ruy Belo escreve um texto, ‘Breve Programa para Uma Iniciação ao Canto‘, onde a indizível condição da mortalidade (do ‘não pertencer a este mundo’) se inscreve com um carácter quase premonitório, quase programático. Termina assim, o texto: “(…) O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da auto-biografia, tentou a todo o custo evitar a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou aprender com as palavras, finalmente disponível não já tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.” Leia-se este terceiro poema da sequência ‘Monte Abraão’ à luz do ‘programa’ enunciado.

SÚPLICA


O outono demorou-se no mundo

A juventude há muito despediu

a primavera da primeira ave

Respiro as lágrimas das raparigas

recordo-me do seu odor nocturno

Escuto o movimento lento da ramada

esqueci a escada habitual do dia-a-dia

a cortina da chuva corre-se de novo

Nesta manhã de outono aluviões   da vida

murmuram-nos mulheres minuciosas

O ombro da colina ergue o nevoeiro

na madrugada não cantam melros

A areia bebe cheia a chuva enquanto

nós infinitamente nos distanciamos

de quanto – diz a santa – desejamos

Aonde está a mãe da minha infância?

Talvez com ela tudo começasse

É nos fins do verão alguém morreu

foi-se a ferocidade das cigarras

no caminho das tílias percorridas

Deixo cair as mãos pois nem me restam essas

aves do mar que a tempestade impele

em tempo de equinócio para a costa

É o cabo do mundo é o fim do ano

a era da perfeita culpabilidade

Respiro já os meus últimos dias

Sobre este céu nenhuma ave adeja

Que a terra humedecida me proteja

Ruy Belo, in Transporte no Tempo, p. 14-15, Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, Lisboa, 1981.

© Duarte Belo

© Duarte Belo

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