Poesia Portuguesa (31) – Ruy Belo

by manuel margarido

E chego ao poeta onde para mim tudo começou. Aos 16 anos, em Peniche, os dois primeiros volumes da ‘Obra Poética’, editados pela Presença. Na praia, dividia o tempo entre o fascínio predador e físico da pesca aos polvos com a leitura compulsiva de Ruy Belo. Experiências que marcam a vida; a segunda mudou-a, muito mais que eu possa imaginar, ainda hoje. Era Julho, as férias eternizavam-se, a pele coloria. Quando chego a Lisboa, um tio meu, médico, que privara com o poeta e me convidara a descobri-lo, diz: “Olha, morreu o Ruy Belo. Já estava muito mal. Via-se que ia acabar mal.

Acabou indo ao encontro que o abismava.

A escolha deste poema, deste livro, não é casual. Se os primeiros livros me tocaram profundamente pela dilemática entre a fé e o seu progressivo questionamento, já ‘Transporte no Tempo’ se anunciava como o prenúncio anunciado daquela que foi, digo, a maior interlocutora do escritor: a morte. Inicia-se com a sequência Monte Abraão, contendo 11 poemas e um texto. Monte Abraão onde vivia, deploravelmente ‘destacado’ para o ensino secundário nocturno. (Na memória o belíssimo ‘Ruy Belo – Coisas do Silêncio’, com fotografias do seu filho Duarte Belo, de uma intimidade quase impossível (organização de Rute Figueiredo), onde se pode ver o casario suburbano no qual Ruy Belo vivia. E um texto de introdução de Luís Miguel Cintra que, palavra de honra, hei-de colocar aqui.)

MONTE ABRAÃO


Ao Senhor Joaquim Baltasar,

banheiro da Senhora da Guia


O pessimismo de Antero é mais alegre

que o seu optimismo e a sua fé mais

desoladora que a sua descrença.

Fernando Pessoa


ENTERRO SOB O SOL

Era a calma do mar naquele olhar

Ela era semelhante a uma manhã

teria a juventude de um mineral

Passava por vezes pelas ruas

e as ruas uma a uma eram reais

Era o cume da esperança: eternizava

cada uma das coisas que tocava

Mas hoje é tudo como um fruto de setembro

ó meu jardim sujeito à invernia

A aurora da cólera desponta

já não sei da idade do amor

Só me resta colher as uvas do castigo

Sou um alucinado pela sede

Caminho pela areia dêem-me um

enterro sob o sol enterro de água

Ruy Belo, in Transporte no Tempo, p. 13, Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, Lisboa, 1981.

© Duarte Belo

© Duarte Belo