Alegro-me com a descoberta de um blogue, Poetas Portugueses do Século 21, para logo me entristecer com o seu (aparente) termo, em Dezembro de 2008. O trabalho dos seus criadores permitiu, ainda assim, juntar trabalhos de duas dezenas de autores, de diversa valia, quase todos muito novos. Por desfastio de uma inclinação para a ‘desconstrução egótica’ que muito se inscreve na actual produção poética, escolhe-se este poema (este enorme desejo de narrativa, formalizado em poema) de vincada face ‘neo-neo-realista’, versão actualíssima de um quadro que se julgaria passado e é tão de agora que até dói. A autora é Bruna Pereira (Ponte do Lima, 1983).
Lavara as mãos em sangue antes de jantar tremoços.
Era a educação dos limpos.
Dos Judas de espelho em casa e palito na boca.
Dos sem culpa numa vida de lavatório com germes.
Era fácil não querer saber dos outros.
Do gato, da mãe acamada, do filho sem papa e sem dentes ainda.
Do filho que dizia não ser seu enquanto se coçava e via o futebol.
– És uma puta! E tenho mais em que gastar o meu dinheiro.
E estava feita a oração antes da ceia.
E da varanda que é também sala de estar, subia o fumo da mulher do batom
[vermelho que aquecia a rua.
– Mas que caralho pensas que é isto?
E havia menos um prato inteiro que lavar.
Se a conta da água estivesse paga.
Se houvesse água em casa.
Choro, vidro, golo, menos outro prato, ralho, estalo, grito, copo voador, berro,
[copo partido no chão, tremoço,
vizinho apaga a luz, falta, casca de tremoço, murro, intervalo de jogo, outro
[vizinho finge que não está a ver
nada, resultado 2-1, pum, silêncio.
Sirene do INEM.
Quando alguém leva um tiro no meu bairro, aparece sempre a sirene do INEM
[apegada a uma ambulância amarela.
Depois volta a haver silêncio, fecha-se tudo em casa, os gatos esgueiram-se por
[entre os caixotes do lixo podre
que ninguém recolhe e a mulher do batom vermelho desaparece nuns mínimos
Eu vou lavar os dentes e tentar dormir.
Mas nem sempre consigo…
Bruna Pereira in → Poetas Portugueses do Século 21 (blogue)
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