Volta-se a João Miguel Fernandes Jorge, ao seu quinto livro, Turvos Dizeres, ainda na alvorada de uma obra poética sem ‘filiação’ nem ‘escola’, obra singular. Neste ano de 1973, neste livro (nesta bela edição do Círculo de Poesia da Moraes, com o inesquecível ‘sol’ de José Escada aposto em tarja negra sobre a capa em cartolina cor de cartão), já se encontravam os fundamentos do que o poeta nos daria: uma poesia contra a corrente, diferente, intransigente no seu programa estético, que apenas o tempo permitiu vislumbrar em toda a sua dimensão. O livro, dividido em cinco partes, começa com um conjunto de dez poemas sob o ante-título A Ilusão Veemente. É o primeiro poema que aqui se publica.
Tenho vinte e muitos anos estou a meio da minha vida
e nada sei sobre o Guadalquivir.
Nada sei das inundações arruinando searas pessoas
nada sei dos seus rápidos do infindável tráfego
que o homem vai remando para jusante.
Histórico traiçoeiro rio
(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.
Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.
Que me queres? Queria conversar.
Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.
Então fala-me do Guadalquivir.
Olhei apenas para as águas do rio (porque
me sentia tão só como o cão de Francis Bacon
entre uma esquadria vermelha).
Tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.
João Miguel Fernandes Jorge, in Turvos Dizeres, p. 13, Colecção Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa, 1973.
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