Sem Eira Nem Beira – os Xutos dominam…

by manuel margarido

Confesso, sim, sempre gostei dos Xutos & Pontapés. Não por os ter visto nascer (vi nascer coisas como os UHF, os Táxi, os Trabalhadores do Comércio, valha-me deus) mas pela inacreditável bojarda de energia com que aqueles putos começaram. As letras eram pobres? Batiam! O Tim cantava mal? O pessoal sentia aquilo! E bastou pouco, muito pouco tempo, para os Xutos terem criado duas coisas daquelas que ficam para sempre: um conjunto de canções maiores (Remar Remar, O Homem do Leme, Na América, Esta Cidade, Barcos Gregos, Direito ao Deserto, Sémen, designo apenas as que mais gosto); e uma iconografia única, como nunca ninguém fez em Portugal ao nível das bandas. Os Xutos são, hoje, trinta anos passados, uma marca transgeracional – basta olhar para o primeiro frame do video-clip para perceber a força da imagem que conseguiram gerar e, mais significativo, consolidar. Os espectáculos do grupo até se podem repetir um bocado. Mas são uma festa, o melhor que se faz no nosso país no domínio do Rock&Roll. Acomodados, os rapazes? Bem, ao lançarem o seu novo álbum, comemorativo de três décadas de carreira, os Xutos conseguem abanar, de novo, as águas, com o tema Sem Eira Nem Beira. E esta canção é uma bomba tão poderosa contra José Sócrates como um bom caso de polícia. Claro, como os rapazes não são parvos, um destes dias estão a tomar o pequeno-almoço com o sr. engenheiro.  Com um sorriso inapelavelmente simpático. E  letal.

Anda tudo do avesso

Nesta rua que atravesso

Dão milhões a quem os tem

Aos outros um passou – bem


Não consigo perceber

Quem é que nos quer tramar

Enganar

Despedir

E ainda se ficam a rir


Eu quero acreditar

Que esta merda vai mudar

E espero vir a ter

Uma vida bem melhor


Mas se eu nada fizer

Isto nunca vai mudar

Conseguir

Encontrar

Mais força para lutar…


(Refrão)

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção

Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Não tenho eira nem beira

Mas ainda consigo ver

Quem anda na roubalheira

E quem me anda a comer


É difícil ser honesto

É difícil de engolir

Quem não tem nada vai preso

Quem tem muito fica a rir


Ainda espero ver alguém

Assumir que já andou

A roubar

A enganar

o povo que acreditou


Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar

Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar…


(Refrão)

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção

Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Não tenho eira nem beira

Mas ainda consigo ver

Quem anda na roubalheira

E quem me anda a foder


Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Mas eu sou um homem honesto

Só errei na profissão

(Refrão)

Advertisements