Aos 22 anos, com um livro de poesia já publicado (A Lua Está Acesa, Corpos Editora, Lisboa, 2008), Liliana Jasmim surge com uma poética portadora de alguma ingenuidade formal e de um universo referencial ainda estreito, visivelmente biográfico; mas é essa ingenuidade que, por vezes, joga a favor dos poemas, tão transparentes no seu desejo de narratividade, explosões emotivas com destinatário. A autora tem um blogue, O Silêncio dos Versos, essencialmente dedicado à poesia – onde se podem encontrar textos dela. O blogue, com uma estética evoluída (que é também feita das escolhas) é particularmente bom na qualidade da edição fotográfica.
Um ser corpo?
O corpo em declínio,
num desequilíbrio
sem tronco.
O corpo que apodrece
debaixo dos lençóis,
com a dor a romper
nas costuras de uma ferida.
O corpo projectado no vazio
quase,
oculto
anónimo
quadrado
perplexo
sem nexo
arqueado
queimado
vago
O corpo vacinado, amestrado.
O corpo enterrado nas mãos,
treinado para correr e não para sentir.
O corpo entupido pela rigidez.
Um corpo quase louco
pela insónia de afectos.
Um corpo que se quebra a ler Camus.
O Corpo atormentado pela poluição,
morto pelo grito dos pássaros à noite.
O corpo que finge orgasmos.
O corpo que se cala, quase em pranto.
O corpo,
numa casa aparentemente arrumada
onde sobra um braço dormente para compor as estantes.
Liliana Jasmin → O Silêncio dos Versos (blogue), 1 de Fevereiro de 2009
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