É já dia 26, tendo Filipa Leal como poeta convidada, que se realiza a próxima sessão do ciclo de poesia organizado pelo Teatro do Campo Alegre. Havemos de ir a Viana promete “Cento e vinte minutos de pura magia…”.
Aqui se deixa um poema de Filipa Leal, publicado em 16 de Março no blogue das Quintas de Leitura (enquanto o meu exemplar de A Inexistência de Eva, último livro da autora, procura o seu caminho até à Bulhosa do Campo Grande.)
No Princípio Era
Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.
No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.
→(Filipa Leal, Janeiro de 2007)
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