As Asneiras do Magalhães – ‘Gravar-lo e continuar-lo’

by manuel margarido

Durante algum tempo equacionei a possibilidade de ser um parolo por parola achar a parafrenália mediática e o empenho bacoco do Governo, e de José Sócrates em particular, na proclamação do ‘Magalhães’ como a varinha mágica que colocaria Portugal em geral e a juventude em particular numa nova era de modernidade, saber e progresso (Augusto Santos Silva, esse áugure, o proclamou). A constatação de que a coisa, além de parola, perigosa (leia-se António Barreto) é, ainda por cima, desastrada levou-me a uma irreprimível gargalhada. Uma triste gargalhada. «É o máximo, não é?»

«O Estado esteve na origem e liderou o projecto, mas este não é um programa do Governo, é sim o resultado de uma parceria entre o Estado, a escola, os operadores e as autarquias», avisou José Sócrates, que aproveitou para criticar que se empenha em desvalorizar o computador, considerando que essa é «uma atitude de quem não precisa, porque quem precisa da ajuda do Estado fica satisfeito por finalmente dispor de um programa capaz de responder a dois desafios: melhorar a educação e melhorar os índices de utilização de computadores». (…) O ministro Santos Silva até já fala numa substituição de paradigma: «Os computadores são hoje o que os cadernos, os lápis e as canetas foram e continuam a ser: materiais didácticos». Durante a visita à escola do 1º ciclo em S. Mamede de Infesta, que marcou o arranque do programa e-escolinhas, com a distribuição de 3 mil portáteis, José Sócrates fez questão em entrar em todas as salas de aula, onde os «Magalhães» já estavam a ser utilizados pelas crianças. «Isto é o máximo, não é?», questionava, sempre que os via, procurando auscultar o entusiasmo.

IOL Diário, 23 de Setembro de 2008 (sublinhados meus)

«Da maneira como o Governo aposta na informática, sem qualquer espécie de visão crítica das coisas, se gastasse um quinto do que gasta, em tempo e em recursos, com a leitura, talvez houvesse em Portugal um bocadinho mais de progresso. O Magalhães, nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal» (…) «Chegou-se ao ponto de criticar aquilo a que chamaram “cultura livresca”. O que é terrível. É a condenação do livro. Quando o livro é a melhor maneira de transmitir cultura. Ainda é a melhor maneira. A coroa de todo este novo aparelho ideológico que está a governar a escola portuguesa – e noutras partes do mundo – é o Magalhães. Ele foi transformado numa espécie de bezerro de ouro da nova ciência e de uma nova cultura, que, em certo sentido, é a destruição da leitura.»

António Barreto, Revista LER, Março de 2009 (sublinhados meus)

“Neste processador podes escrever o texto que quiseres, gravar-lo e continuar-lo mais tarde”

O Festival de asneiras do Magalhães, Expresso online, 7 de Março de 2009

'Circumnavega um ómem u mundo pra ver enchovalhado o nome'

'Circumnavega um ómem u mundo pra ver enchovalhado o seu vom nome'