António Lobo Antunes no Público – o Editorial

by manuel margarido

Assinalando o seu 19.º aniversário, o Público convidou António Lobo Antunes para assumir as funções de ‘director’ por um dia. Já o havia feito anteriormente, com José Pacheco Pereira, que teve um papel bastante interventivo nessa ‘sua’ edição do jornal. No Público de ontem, além de uma saudável variação formal, sendo a ‘notícia’ de capa o próprio jornal com o sugestivo título Ups! Fizemos asneira, a que se seguem os sub-títulos Inventário das gralhas e disparates dos últimos 19 anos. Um verdadeiro jardim cheio de flores; E nós, também vamos acabar? Não foi esse o destino de tantos jornais em papel?; ainda, em sub-título, É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta, que nos remete para o Editorial, escrito por Lobo Antunes. É uma crónica magnífica, onde a nostalgia mascara a zanga com o presente. As crónicas em jornal/revista do escritor são, de resto, portadoras de uma perspectiva singular, nas quais é capaz de escrever sobre um bairro como Chelas (por exemplo) fugindo à sociologia, à  retórica moral, ao juízo político, penetrando de forma empática nos meandros da vida, de qualquer vida comum, ou mesmo sórdida, com uma funda capacidade de se colar à pele dos dias dos outros e nela encontrar motivo de deslumbre ou, pelo menos, de funda interrogação. Neste caso, é a pele dos jornais que ele toca, a partir da memória.

Repara-se, já quando se finaliza este post (que foi transcrito) que o Público colocou a crónica de António Lobo Antunes online. Olha, pelo menos não têm a fotografia do Merckx.

Os jornais & eu

Em criança

(e em adolescente, e em adulto)
não havia jornais na minha casa mas havia jornais nas casas da minha família. Na do meu avô paterno lembro-me do Debate, monárquico, impossível de ler porque estava sempre dobrado e com a cinta posta. Na do meu tio Elói, aí sim, abertos, os semanários da sua terra, o Ecos de Pombal e o Notícias de Pombal. Na secção necrológica do Ecos li uma ocasião uma notícia que começava assim: faleceu oportunamente no Brasil o senhor Fulano de Tal, tio do nosso estimado amigo Não Sei Quê Não Sei Quê. Na do meu outro avô, em Nelas, era o Diário de Notícias, que chegava no comboio da meia-noite e trazíamos, de bicicleta, da estação. O meu outro avô, de casaco de linho branco, passava horas a lê-lo na varanda para a serra. Depois do casaco de linho morrer a minha avó substituiu o Diário de Notícias pelo Almanaque da Sãozinha, cheio de milagres da dita, relatados por crentes agradecidos. Num desses prodígios uma senhora contava que, de pobre que era, olhava em lágrimas as panelas vazias do almoço. Veio-lhe a Sãozinha à ideia, rezou com empenho, entrou-lhe de imediato uma lebre pela cozinha dentro, fechou a cozinha, matou a lebre à paulada e regalou-se a comer prodígio divino de cabidela. Confesso que esta dádiva da Sãozinha me fez um bocado de impressão, ao imaginar o assassinato do bicho. Até ao fim da sua vida a pagela da santa dos roedores ocupou um lugar importante no oratório da minha avó: uma adolescente de aspecto virtuoso, cheia de medalhas, que ofereceu a sua existência terrena em troca da conversão dos pais. Jesus fez-lhe a vontade arrebatando-a, estou a citar, ao nosso convívio, e os pais incréus descobriram o Altíssimo que, mesmo através da cabidela e do fricassé, se manifesta à gente, ou não mesmo, de preferência através da cabidela e do fricassé, misturando o Céu com o micro-ondas e os mandamentos com batatinhas salteadas.
Na ideia de entender o interesse do meu outro avô pelo Diário de Notícias comecei a folheá-lo, não era aos quadradinhos e portanto aborreceu-me. Troquei-o por pilhas antigas das Selecções do Reader’s Digest em que achei nacos de prosa fascinantes: “Encontrei o Amor no Hospital Ortopédico”, “Eu Sou o Testículo do João”, “Ao Ficar Cega a Sua Existência Ganhou Sentido”. Mais tarde A Bola e o Record, sobretudo A Bola onde trabalhavam grandes jornalistas
(Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Vítor Serpa, as extraordinárias reportagens da Volta à França de Carlos Miranda que bem mereciam estar reunidas em livro e nada devem às de Antoine Blodin)
e quando esta geração deixou de escrever eu fui deixando de ler. Ao PÚBLICO devo o ter começado a ensaiar prosinhas em forma de crónica graças ao convite de Vicente Jorge Silva, que eu não conhecia e me convidou para o suplemento dos domingos, salvando-me, porque a editora, à época, não pagava, de vender Bordas de Água nas pastelarias ou arrumar automóveis
– Trôça, trôça
na zona do Saldanha, a coçar a magreza com o debrum preto das unhas. Agora não leio jornais: vejo o teletexto, a única coisa, aliás, que vejo na televisão desde que o futebol deixou de ser um desporto, a política uma ocupação digna e a cultura se transformou em banalidades veementes, uma estrebaria de porta aberta em que toda a gente entra, como dizia D. Francisco Manuel de Melo, autor muito do meu afecto. Vejo as capas e as primeiras páginas no quiosque frente ao restaurantezito onde como e passo em frente. As prosinhas do PÚBLICO aparecem hoje na Visão, onde sempre me trataram com extrema delicadeza. Há pouco abri um exemplar e dei com uma tantas frases acerca de mim, estúpidas, desonestas e ignorantes: fiquei curado. É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, como os nomes de que há pouco falei, e que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. O que me assusta é o facto de qualquer pessoa estar à mercê de criaturas medíocres, sem possibilidade de rectificar a pulhice. Faleceu oportunamente no Brasil: ao menos o Ecos de Pombal era sincero. A lebre para a esfomeada com fé: ao menos o Almanaque da Sãozinha dava esperança a quem almoça um carioca e um salgado no balcão. Ao ficar cega a sua existência ganhou sentido: ao menos as Selecções do Reader’s Digest animavam os que tropeçam. Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei. E se o testículo do João for o testículo de António, então, juro, não perco uma sílaba. Desde miúdo que me dá vontade de abrir os brinquedos,  a verificar como funcionam. E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito
(não estou seguro)
que não existem parafusos nem roscas. Foram um presente dos meus pais e como quase tudo em mim continuam a ser um mistério. Devíamos vir com manual de instruções, como os electrodomésticos.

António Lobo Antunes, Público n.º 6911, 5 de Março 2009

Eddy Merckx. O 'Tour de Carlos Miranda'

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