Michael Ondaatje – O Descascador de Canela

by manuel margarido

Recupero um poema de Michael Ondaatje que me foi ‘oferecido’ (já traduzido, desconhecendo eu a autoria da tradução). Faz hoje quatro anos. Macio poema de (dos) sentidos.

O Descascador de Canela

Se eu fosse um descascador de canela

deitar-me-ia na tua cama

e deixaria o pó amarelo da casca

na tua almofada.


Os teus seios e os teus ombros cheirariam a canela

nunca mais poderias passar no mercado

sem a profissão dos meus dedos

flutuando por cima de ti. O cego tropeçaria

certo de quem se aproximava

mesmo que tomasses banho

na chuva das calhas, na monção.


Aqui no cimo da coxa

neste macio pasto

vizinho do teu cabelo

ou do sulco

que te divide as costas. Este tornozelo.

Serás conhecida entre os estranhos

como a mulher do descascador de canela.


Só a custo te podia ver

antes do casamento

nunca te toquei

– a tua mãe nariguda, os teus irmãos tão brutos.

Enterrei as minhas mãos

em açafrão, disfarcei-as com

alcatrão de tabaco

ajudei os apicultores a colher o mel…


Uma vez que estávamos a nadar

toquei-te na água

e os nossos corpos permaneceram livres,

podias segurar-me e ser cega de cheiro

Saltaste a margem e disseste


isto é como tu tocas as outras mulheres

a mulher do cortador de relva, a filha do queimador de limão

E procuraste nas tuas mãos

o perfume desaparecido


e soubeste

como é bom

ser a filha do queimador de lima

deixada sem marca

como se lhe tivessem falado no acto do amor

como se ferida sem o prazer de uma cicatriz

Roçaste o teu ventre nas minhas mãos

no ar seco e disseste

sou a mulher do descascador

de canela. Cheira-me.

«cinnamon flavour feelings», Cornel Mosneag © Cornel Mosneag, via Deviantart