As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Fevereiro, 2009

Novos Poetas (35) – Nuno Dempster

Descobri o trabalho poético de Nuno Dempster no blogue de que é autor, A Esquerda da Vírgula. Na diversidade temática e mesmo formal, encontrei um poeta que merece ser lido – prossegue, actualmente, no blogue, a publicação da série de poemas Obituário, numa tonalidade irónica, por vezes desencantada, por vezes cáustica, onde as marcas referenciais de uma sólida leitura predecessora da escrita poética estão presentes, sem contaminarem o equilíbrio dos poemas – o mesmo se poderia dizer do livro que acaba de publicar, Dispersão, com a chancela da Edições Sempre-em-Pé, reunindo, 290 páginas (!)  e 216 poemas revistos, “engloba toda a minha produção poética de dez anos, de Março de 1998 a Fevereiro de 2008” Nuno Dempster diz. Enviado pelo autor, aqui se deixa um poema de Confluências, segunda das sete partes em que o livro se divide. Faço questão de acrescentar o poema de abertura do volume, Ítaca, de que gosto particularmente, embora se possa dar com ele no blogue do autor. O livro pode encontrar-se pelo menos nestas livrarias. Garanto que não tenho comissão :-)

OLHOS CINZA

Quando uma noite as mãos lhe roçaram a pele,


ainda se guardava para aquele


que se fora num dia incerto,


um dia como alguns na vida


que, em vez de início, são o incrédulo final


com o nome vulgar de desespero e, menos


comum, de solitários olhos cinza


tão fielmente tristes,


como se ele, voltando do passado,


pudesse estar ali a vê-la abraçar-se a outro,


o corpo manequim de gelo elanguescendo aos poucos.

*

ÍTACA

Quando partires, em direcção a Ítaca,
que a tua jornada seja longa
(…)
Konstantinos Kavafis

Se ao longe imaginares Ítaca,

que não te dê saudades.

Uma ilha é um monte sem caminhos.

Descansam nela as aves migratórias,

e a gente que a povoa

gasta o tempo a sonhar aonde irão

as aves no seu alto voo

quando partirem.

E sobretudo Ulisses há-de

segui-las com os olhos,

lembrando-se de Circe.

O azul, digo-te, é uma cor volúvel,

e o céu e o mar são só desertos.


Nuno Dempster, Dispersão – Poesia Reunida, Edições Sempre-em-pé, Lisboa, 2008.

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Pérolas (14) – Fazer um morto: a chacina

(Como se pode comprovar, o D.N. apresenta hoje este requintado título noticioso)

Fez um morto e três feridos e depois matou-se

(não satisfeito, o perpetrador da notícia acrescenta o seguinte sub-título, que evoca Darfur ou, mais modestamente, a Praia do Osso da Baleia)

A chacina começou com agressões e terminou a tiro

muitas 'chacinas' acabam em holocaustos

não se brinca com coisas sérias, mas pasma-se com a indigência

Poesia Portuguesa (20) – David Mourão-Ferreira

E por vezes

E por vezes as noites duram meses

E por vezes os meses oceanos

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos E por vezes


encontramos de nós em poucos meses

o que a noite nos fez em muitos anos

E por vezes fingimos que lembramos

E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos o gosto aos oceanos

só o sarro das noites não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos


E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se envolam tantos anos.


David Mourão-Ferreira, in Matura Idade, Arcádia, Lisboa, 1973.

© Rafael Brandão, Olhares, Fotografia Online

© Rafael Brandão, Olhares, Fotografia Online