Poesia Portuguesa (23) – Eugénio de Andrade

by manuel margarido

Aproximava-se o final da produção do poeta, com “Sal da Língua“. Eugénio de Andrade mergulhava na infância. Aproxima-se da criança que nele habita como quem se abeira da morte.


No fim do verão

No fim do verão as crianças voltam,

correm no molhe, correm no vento.

Tive medo que não voltassem.

Porque as crianças às vezes não

regressam. Não se sabe porquê

mas também elas

morrem.

Elas, frutos solares:

laranjas romãs

dióspiros. Sumarentas

no outono. A que vive dentro de mim

também voltou; continua a correr

nos meus dias. Sinto os seus olhos

rirem; seus olhos

pequenos brilhar como pregos

cromados. Sinto os seus dedos

cantar como a chuva.

A criança voltou. Corre no vento.

Eugénio de Andrade, Sal da Língua Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1995.

© António Félix, Olhares, Fotografia Online

© António Félix, Olhares, Fotografia Online

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