Os ‘meus’ Blogues – irmaolucia

by manuel margarido

Escrever um blogue não será exactamente um exercício de verborreia regular, onde o autor ou autores desabafam pensamentos definitivos sobre questões muitas vezes excessivamente passageiras. Ou será. Não entendo assim, defeito meu. Tal como não compreendo bem a lógica de copy/paste, o exercício de partilha do diário que deveria estar fechadinho com um cadeado, a trincheira para guerrilhas pessoais com um vastíssimo número de interessados que se esgota nos próprios, o anonimato que tantas vezes esconde o faccioso. Na magnífica plataforma de expressões plurais que a blogosfera permite, muitas são as modalidades possíveis para os autores darem forma ao desígnio a que se propõem: fazer ouvir, num meio que tem recursos comunicacionais cada vez mais vastos, a sua singular (plural) voz,  para ser visto. Escutado. Lido. É essa a vontade que está na origem de um blogue. Mas a ideia de ter um auditório e correspondente público implica que se tenha uma ideia discursiva. Ou melhor, anterior a ela, uma identidade (mesmo que fragmentada, questão identitária que nos levaria longe).

Entendo o blogue que escrevo como um lugar de partilha das coisas que me espantam, dão prazer, gozo, ou suscitam por vezes a ironia. Mas sobretudo um lugar de encontros, onde se podem cruzar, casualmente (a norma é tantas vezes essa casualidade ter um sentido) a cintilação de um poema com o relâmpago de uma imagem; o fulgor de um texto com a doçura de uma alfinetada no traseiro da idiotice. Aqui é um lugar de conjugações, portanto. De acasos que não são por acaso. Lugar de partilha do prazer. Da uma ética da beleza (não escrevi ‘do bonito’, está bem?).

Ontem editei um poema de Nuno Júdice. Apetece-me pensar que não foi por acaso que me chegou às mãos. Tal como não foi por acaso, que, mal o publiquei e dei uma última olhadela a alguns blogues, tenha ‘tropeçado’ neste post de um blogue que muito estimo, o irmaolucia (assim mesmo), um dos mais amados na blogosfera, aposto. O autor, Pedro Vieira, é um ‘blogger’ (como raio se escreve autor de blogue?) por definição. Ou seja, ele próprio se encarregou de alargar conceptualmente a ideia de blogue, com a mão notável para os títulos, para o post curto e tantas vezes letal, outras tantas paródico, intercalando o registo pessoalíssimo com um olhar ácido, irónico, terno sobre o quotidiano; concebendo as suas próprias ilustrações – que resultam, as dele, neste meio como em nenhum outro. Aliás, não imagino o irmãolúcia de Pedro Vieira fora da blogosfera, ao contrário de muitos que escrevem o blogue nosso de todos os dias a pensar na primeira edição em papel.

Ontem, dizia, editei o poema Lusofonias, de Nuno Júdice. Nem dez minutos haviam passado quando deparei com este post. Ora venham lá dizer-me se o acaso não produz o encontro. E se o resultado da simultaneidade não é poético!

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bica a metro

Há um tipo de local que me repugna/fascina pela cidade fora, mais concretamente os quiosques/cafés da Sical, em tons de vermelho e ocres, mergulhados no metro/politano, cheios de gente mas tão vazios, corpos carentes de cafeína mas também de um ombro consolador que ali não se encontra. Incrível a quantidade de gente de cara fechada que ali ruma em busca do abatanado, da italiana, do galão claro e morno, há vidas assim, da bica cheia, do garoto, do diabo a sete e mais um queque de cujas moléculas suspeito imenso, as merendas que podem ser de maçapão ou folhadas na voz de uma especialista que ouvi aqui há dias, todas reluzentes debaixo da luz fluorescente do balcão, a natureza não produz coisas assim, que luzem e que se trinquem na companhia de cegos, migrantes, passeantes, aleijados e trabalhadores de outros comércios, executivos de casta baixa, mochileiros, e esfomeados de ocasião mortinhos por uma vida mista, o queijo e fiambre a desafiar pelo menos a penumbra dos dias. Nos quiosques/cafés da Sical há gelados da Maxibon, bolos instantâneos, empregados que enfiaram a palavra sorriso num paradeiro desconhecido, e sente-se um frio que as paredes decoradas em motivos quentes, africanos, não disfarçam, a preta ilustrada de lenço na cabeça e moldura de fancaria tem mais vida do que aqueles microscosmos em que até as migalhas brilham, ali, aos pés dos incautos. E as migalhas não é suposto brilharem, foda-se.


Leia-se o post na sua origem, com os comentários que suscitou. Para o caso de alguém não conhecer o irmaolucia, o que duvido.

'num café perto de si © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

'num café perto de si' © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

(não é Sical, mas não fica mal)