Poesia Portuguesa (21) – Nuno Júdice

by manuel margarido

Devo ao conhecimento e amor pela poesia de pessoa amiga (que nunca vi, mas assino de cruz o adjectivo) a surpresa deste poema. Nuno Júdice comprova, com um belíssimo golpe de asa cheio de ironia, que o acto poético, mesmo na sua expressão contemporânea (por vezes tão marcada pelo signo da ‘gravidade’) a fina ironia se pode conjugar com um domínio superior da escrita, para produzir resultados de fruição e, por que não dizê-lo, da diversão. É uma bela alegoria esta, que se estabelece a partir da semântica das palavras ainda não uniformizadas, graças às idiossincrasias das diferentes normas do português e os anónimos cafés sem mesas do nosso quotidiano.

Lusofonia

rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada

no café, em frente da chávena do café, enquanto

alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este

poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra

rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,

terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,

a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga

que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não

fique estragada para sempre quando este poema atravessar

o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo

sem pensar em áfrica, porque aí lá terei

de escrever sobre a moça do café, para

evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é

uma palavra que já me está a pôr com dores

de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria

era escrever um poema sobre a rapariga

do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a

escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se

pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.

Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008

Nighthawks © Edward Hooper

Nighthawks © Edward Hooper

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