As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Janeiro, 2009

José Eduardo Agualusa – 3 poemas

Em 1986 a Assírio & Alvim dava à estampa a terceira edição do seu Anuário de poesia – Autores não publicados. Creio que, após este número, a iniciativa deixou de ter continuidade mas nele encontramos, com alguma surpresa, três poemas de um jovem angolano então com 25 anos, que se viria a notabilizar como romancista e novelista: José Eduardo Agualusa (Huambo, 1960). É certo que, em 1990, Agualusa reúne, em Coração dos Bosques – Poesia 1980-1990, o seu trabalho poético de uma década. Mas é bem possível que tenham sido estes os primeiros poemas do autor a conhecerem edição (agradeço qualquer informação que corrija os dados de que disponho). Observação final: o júri teve de seleccionar os autores que considerou mais válidos (“com certo dom de expressão ou conhecimento da tradição multímoda dos poetas”) num universo de 956 propostos. Era composto, o júri, por Fiama Hasse Pais Brandão, José Agostinho Baptista e Miguel Serras Pereira. Era um ‘Anuário’ a sério.

(Nota: o referido volume foi comprado, há cerca de um mês, numa livraria do Chiado, em Lisboa (uma das mais antigas e pequenas, para que conste). Estava cuidadosamente ‘soterrado’ sob uma pilha de outro livros, dentro de um caixote de cartão. Preço: 1 (um) euro. Não sei o que pensar disto.)


TEMPO DAS CHUVAS

Antes que venham as primeiras chuvas

acender

Amarelas flores entre os rochedos

E o céu se torne móvel de compridos pássaros

E todo o chão se cubra do verde novo

Do capim


Saberás pelo vento que chegaste ao fim.


DO TEMPO E DA MORTE EM PUNGO ANDONGO

Às vezes penso naquele poente que eu não vi

em Pungo Andongo

E no tempo (esse estranho mito)

Que não fixou os corpos, nem os gritos

Nem o sangue do sol nesse preciso instante.

Às vezes penso em Pungo Andongo

E em quantas vezes se repetirá o rito

O ritual da morte (outro estranho mito)

Tão lúcido e tão breve nesse preciso instante.


NETO BISNETO DE JAGAS

Neto bisneto de Jagas

Tenho no sangue o lume do sangue

Das noites longuíssimas de espanto e temporais

Das noites eriçadas de presságios e punhais

Tenho no sangue a Morte

Neste sangue

Onde dormitam calados

os chacais.

José Eduardo Agualusa, in Anuário de Poesia – Autores não publicados, pp. 64 – 66, Assírio & Alvim, Lisboa, 1986.

© Luis Carlos Pinheiro Pires, olhares, fotografia online

© Luís Carlos Pinheiro Pires, olhares, fotografia online

Pérolas (11) – Os Helicópteros e os SAP

(mas no Diário de Notícias nunca mais aprendem a fazer títulos?)

“3 helicópteros apoiam fecho de 20 SAP”

'como é que os fechamos? Bombas, tirinhos, ou sobrevoamento de proximidade?'

'como é que os fechamos? Foguetes, tirinhos, ou voos de intimidação?'

Poesia Portuguesa (XV) – Joaquim Manuel Magalhães

Sem qualquer espécie de pudor, antes humildade ante a síntese consistente e mais que suficiente para apresentar o autor a quem dele menos conheça, transcrevo a nota biográfica de Joaquim Manuel Magalhães, inserta no excelente blogue Insónia, em 6 de Setembro de 2005, da autoria de Henrique Fialho, (a quem dou conhecimento desta transcrição e a quem devo muitas leituras, em qualidade e quantidade no seu outro blogue, Volumen) “Joaquim Manuel Magalhães nasceu em 1945 no Peso da Régua. Poeta, ensaísta, crítico de poesia e tradutor, doutorou-se em Literatura Inglesa, pela Universidade de Lisboa, com a tese «Consequência da Literatura e do Real na Poesia de Dylan Thomas» (1980). Professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, rege seminários de Poesia Contemporânea. Os primeiros poemas apareceram em 1974, num Envelope concebido pelo pintor António Palolo. Também participou na elaboração do Cartucho (1976). Mais tarde, Alguns Livros Reunidos (1987) colige grande parte da obra publicada até então. Essa recolha inclui os poemas inaugurais, bem como os de Consequência do Lugar, Dos Enigmas, Vestígios, Pelos Caminhos da Manhã, António Palolo, Uma Exposição (este com João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Molder) e Alguns Antecedentes Mitológicos, colectâneas que desaparecem como obras autónomas depois da ampla operação de rasura a que foram submetidas. De fora ficam dois títulos emblemáticos: Os Dias, Pequenos Charcos (1981) e a 2ª edição de Segredos, Sebes, Aluviões (1985), muito diferente da versão de 1981. Considerado o mais influente crítico da sua geração, a sua actividade ensaística faz a síntese do ethos puritano e da pulsão libertária. É autor de uma extensa antologia de poesia espanhola (Poesia Espanhola de Agora, que, em dois volumes, reune sessenta e oito autores nascidos entre 1942 e 1976). Também traduziu Kavafis, Seferis e Ana Akhmatova, bem como inúmeros poetas de língua inglesa. De 1968 a 1970 e de 1975 a 1976, apresentou na RTP um programa semanal de sua autoria, sobre poesia, intitulado «Os Homens, Os Livros e As Coisas».

O poema que escolho pertence a “uma luz com um toldo vermelho” (1990) – integrando o corpo da sua segunda parte, Os Poços – livro duplamente significativo para mim, já que foi por ele que “entrei” na obra de Joaquim Manuel Magalhães, imediatamente após a leitura de “Um Pouco da Morte“, obra de crítica literária que transformou, de modo irremediável, a forma como passei a ler poesia.


“Deita-te comigo nesta cama de pedra.”

Canta de novo esse convite, tantos anos passados,

de novo nas ruínas da rua do emprego

onde fiquei de te esperar.


Está deitado aqui o corpo que recorda, está deitado.

Os ornamentos de metal, a música portátil,

o tambor de uma criança na rua,

o risco amarelo da coberta.


O braço que descai debaixo do pescoço

o coração cujo ritmo decresce

os olhos em que dói a luz do candeeiro

os pés à procura da lã do cobertor

o esperma que seca sobre o peito

o sono entrecortado da respiração.


Trocas de luz errante, ervas sem nome

que me dizias serem feno grego, junça, melodia.

Joaquim Manuel Magalhães, in ‘uma luz com um toldo vermelho’, p. 35, colecção forma nº 24, Editorial Presença, Lisboa, 1990.

© Pedro Polónio, Olhares, fotografia online

© Pedro Polónio, Olhares, fotografia online


Pietá – a minha

Não introduzo elementos de carácter pessoal no blogue. Este é, porém, o primeiro dia de um ano que convoca exigências (raras) no limite da esticada corda das emoções. Por isso não tenho uma fotografia de família. Tenho uma Pietá pessoal (e de Pietá falo, com dolorosa exactidão), de que apenas eu conheço a possibilidade de luz e as linhas de escuridão. Este é, possivelmente, o único post privado que aqui colocarei. Mas tinha de ser e é agora. Sara, minha filha mais nova.

Sara

Sara. Mãe.


e. e. cummings, um poema

Retomo o blogue, após uma semana em que o repensei. Nada de especial. Apenas o sentido que fará manter este espaço de prazer pessoal e de partilha com alguma gente que vai lendo, vendo, devolvendo. O poema de e. e. cummings, este poema, ajudou-me a decidir. A tradução que dele fiz não será a melhor que foi feita em língua portuguesa, claro. Terá mesmo uma abordagem do poema pouco ortodoxa.  Mas deu-me alegria suficiente para sentir que vale a pena manter algumas coisas. Bom Ano.


i thank You God for most this amazing
day: for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky; and for everything
which is natural which is infinite which is yes

(i who have died am alive again today,
and this is the sun’s birthday; this is the birth
day of life and of love and wings: and of the gay
great happening illimitably earth)

how should tasting touching hearing seeing
breathing any -lifted from the no
of all nothing – human merely being
doubt unimaginable You?

(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)

e.e. cummings

agradeço-te Deus por mais este espantoso
dia: pelos saltitantes esverdeados espíritos das árvores
e um azul verdade sonho de céu; e por tudo
que é natural, que é infinito, que é sim

(eu que morri estou hoje de novo vivo
e este é o dia de anos do sol; este é o nascente
dia da vida e do amor e das asas: e do alegre
grande acontecimento ilimitadamente terra)

como poderia saboreando tocando ouvindo lendo
respirando tudo – erguido do não
de todo o nada – humano meramente sendo,
duvidar inimaginável Tu?

(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)

© dolcevita, Olhares, fotografia online

© dolcevita, Olhares, fotografia online