Poesia Portuguesa (19) – Herberto Helder – A Faca Não Corta o Fogo

by manuel margarido

Depois do acontecimento literário do ano, do incondicional estatuto reconhecido ao livro como obra-prima, das técnicas de marketing, do bruá que gerou – e tudo isto, diga-se, com justa causa; depois de passada a onda, o buzz; transcrevo um poema (necessariamente um fragmento, apesar de delimitado no corpo da obra) de A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, de Herberto Helder. Apenas sugiro, a quem não tem o livro, que cometa um crime de furto (ou gamanço, conforme o étimo que melhor casar com a sua consciência).

A belíssima capa, de Ilda David, é sobejamente conhecida. Escolhi não a repetir (basta procurar em qualquer motor de busca).

Nota: os símbolos que ‘autonomizam’ este texto são, na edição impressa, pequenas estrelas de cinco pontas, preenchidas a negro. Por não ter este editor de texto tal símbolo, foi escolhido o pequeno losango.

a faca não corta o fogo,

não me corta o sangue escrito,

não corta a água,

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?

eu sim queria,

jogando linho com dedos, conjugando

onde os verbos não conjugam,

no mundo há poucos fenómenos do fogo,

água há pouca,

mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,

mais brotada, inerente, incalculável,

e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,

e a abre e fecha,

é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,

porque no mundo há pouco fogo a cortar

e a água cortada é pouca,

¡que língua,

que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,

e que pouca, incrível, muita,

e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que música,

que despropósito, que língua língua,

é do Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!

queria-a toda

Herberto Helder, in A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, pp. 66-67, Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2008.

'rasto de fogo branco' © Ricardo Ribeiro, Olhares, Fotografia Online

'rasto de fogo branco' © Ricardo Ribeiro, Olhares, Fotografia Online