Minguante – micronarrativas online (0)

by manuel margarido

(em estado de krímsjúka)

A ideia pode não ser original, mas adquire, com a revista online Minguante, uma expressão, formalização e persistência notáveis. Na própria definição da revista, esta consiste num Espaço online dedicado à micronarrativa. Está aberto à participação e organiza-se em torno de uma revista trimestral e temática. E define, de forma bem concreta, o que entende por micronarrativa: As micronarrativas, em nosso entender, para além de serem breves (não excedendo as 200 palavras), devem ser narrativas, ou seja, contar uma história, quer seja em prosa ou em verso. O Corpo Editorial é constituído por Fernando Gomes (webdesign); Luís Ene (concepção e supervisão) e Margarida Delgado (grafismo). Duas ou três notas apenas, uma vez que a revista pode (e deve) ser lida no seu site. 1) A Minguante nasce em Faro, facto que nos dá uma (pálida) ideia da actual vitalidade de diversos núcleos de produção cultural fora dos grandes centros urbanos; o meio online tem sido uma poderosa ferramenta de afirmação destes núcleos produtores 2) A revista já conta com 13 números, sempre com número crescente de participações, de qualidade desigual, claro, mas na generalidade bem dentro do aceitável; 3) Desde o número zero, a publicação online conta com significativa participação de autores não portugueses (nomeadamente do Brasil e de Espanha), num saudável entendimento cosmopolita da literatura (agora seria moda designar-se por multiculturalismo, étimo que mantenho em pousio enquanto andar a servir para vender muita patranha e muito projecto gerador de empregos por medida).

Uma nota final, esta com alguma tonalidade de tristeza: contactei duas vezes por mail os responsáveis da Minguante, no sentido de me permitirem a divulgação da mesma e de alguns – poucos – textos de cada número. Não obtive, até hoje, qualquer resposta, positiva ou negativa. Não serei digno do estorvo, nem de grandes insistências. Ponderei. Assim, indignamente, mas sabendo que estou, em primeira e última análise, a divulgar um projecto editorial que me suscita admiração, e textos de que gosto, atrevo e publico três textos do número zero, datado de Junho de 2006 – o único sem tema – (aos autores peço indulgência, uma vez que me pareceu correcto contactactar a Minguante). Com o tempo, divulgarei os números seguintes, nos mesmos termos. Talvez os autores da Minguante, que só podem ser pessoas decentes e de gosto, arranjem um pouco de tempo para validar ou negar-me a iniciativa. Acatarei qualquer decisão. desde que a conheça. (continuarei a contactar…)

Minguante, n.º Zero. Junho de 2006

Minguante, n.º Zero. Junho de 2006

José Carlos Barros


O caderno do Mestre Ferrador

Vinte e seis anos
cabem num caderno de capa negra
de cartão grosso: registo do deve e haver
e do estado dos campos. A vacina
do tétano no mês de Junho
de mil novecentos e sessenta e dois,
as ferraduras novas, a infusão de marcela
ou a tintura de genciana
para o gado vacum remoer,
receitas com alúmen, o canfocitrol,
a essência de terebentina,
a injecção para as inflamações
nas tetas das ovelhas. Chamavam-lhe
o Mestre. E o Mestre gostava
dessa deferência para com a sua Arte: vê-se
pela caligrafia apurada, pelo esmero
no alinhamento das parcelas numéricas,
pelo modo como, diz quem o conheceu,
olhava uma mula doente, demoradamente,
e se recusava a emitir opinião
enquanto não passasse ao rigoroso,
minucioso exame científico da besta.

© Maria Lázaro, Olhares, Fotografia Online

© Maria Lázaro, Olhares, Fotografia Online

Henrique Manuel Bento Fialho
Nocturnos

I
Um manjerico com a orelha toda furada, bêbedo que parecia um cacho, berrava que nem vaca tresmalhada. O dono do bar indicou-lhe a saída. O manjerico deu com o vaso. E com os cornos de um boi qualquer.

II
O segurança da discoteca discutia com a namorada enquanto me segurava a goela com os dois punhos. Pedi-lhe um cigarro e dancei do filme armado em herói.

III
Um pastor alemão entrou no bar. O DJ exibia-se à mesa do bilhar. Os fregueses pararam de dançar. Rosa pediu a conta e pôs-se a andar. O cão farejou o motard. Faltou-lhe o ar.

IV
O motard meteu-se com a mulher-desespero. Serviço feito, o motard confessou: «na tênh’ d’ nhêro». O motard, em fuga, espalhou-se na estrada.

V
A menina-ingénua abocanhou o Zé Tó, isto no entrementes de um banhista se lhe trocar de olhares. O Zé topou. Depois, vingou-se dos mares banhando o banhista com meio cibo de pó.

VI
O chibo, para provar que não amava a pedido, esbofeteou a namorada na presença da mãe. Ela não suportou a humilhação. Sacou-lhe as chaves e pô-lo a andar.

VII
O peixe esparóide mirou-o à desconfiança. Virou-lhe as costas e seguiu na direcção do sol nascente. De mastodonte ao léu, pendura de fia-te 600, gritou línguas do leste na direcção dum velho goraz. O anzol morreu de tédio.

VIII
O país sardinha assada afogou-se em água-pé, honrou o jet set com honoris causa e foi de carrinho para Espanha vender figos.

IX
A classe engravatenhada, de telemóvel abrincalhado, optou por sinalizar chamadas com um ring ring aflito. As mulheres andam numa aflição, os filhos andam numa aflição. À hora de jantar, famílias inteiras comparecem aflitas nos sítios do costume.

X
Dois ucranianos, de cajado em riste, caceteavam um colchão moloflex. Enxotavam percevejos e vingavam insónias.

© Ramarago, Olhares, Fotografia Online

© Ramarago, Olhares, Fotografia Online

Nuno Moura
As Desfoque Stories

1

Três anéis de prata em forma de cone no lideiro
amargurando os pequenos cabelos desse dedo
e aproveitando o resto de água quente da caldeira
uma esponja cheia de borbulhas num peito floreiro
muita espuma
é a sua mulher
ela tem quarenta e cinco anos

um convite para jantar
de resto os dois
a mesma mesa
uma duas toalhas em rolamento

na noite passada de 22 para 23
aguardaram comunicação definitiva
reabasteceram de combustível em São Paulo
cobriram a generalidade dos interesses
e de manhã estavam em casa
fruta

pequenos obstáculos
grainhas
dentes.

© António Soares

© António Soares, Olhares, Fotografia Online