Poesia Portuguesa (18) – Joaquim Manuel Magalhães

by manuel margarido

Publica-se aqui um dos poemas que melhor separam as águas entre a identidade homossexual e a sua apropriação/incorporação pela sociedade, poema esse que, lido em confronto e diálogo com o propositivo, programático e cénico poema Homossexualidade, publicado bem mais tarde, na revista Telhados de Vidro nº. 4, de Maio de 2005, nos deixa(m) perante a voz cortante, de espessa ironia e consciente desencanto de Joaquim Manuel Magalhães. No final do poema, transcreve-se um texto de Paula Cruz, professora já referida aqui, autora do não/blogue escolar CercARTE, intitulado Gavetas e Armários. Parece-me acertado que se leiam os dois textos de tal forma que seja tão distinta como cruzada a sua leitura.

Aos poucos foram sendo conhecidos juntamente

Nos ríspidos círculos da classe a que pertenciam

Aos poucos também, a troco da paga decorativa

De vários livros de verso e alguns de ensaio,

Atenuaram-lhes as consabidas ironias e acusações.


Com o tempo vieram as fotografias nos circuitos

De massificação, chegou a haver semanas em que padeciam

Escritos elogios que davam notoriedade sem suspeita.


Nas pistas múltiplas das artes e das noites,

Até antigos desconhecidos, até estáveis malquerentes

Diziam: “os dois poetas”. Antes queriam


Ser tratados pelo nome ou pelo só indicativo

Da profissão que padeciam por a reconhecer

O melhor lenitivo para a obsessiva

E neurotizante dedicação em exclusivo

À chamada profissionalização dos escritores:


«os dois poetas», contudo, semi-servia

para neutralizar outras sevícias.


Mas quando os carros exigiam marcações

na empresa dum mecânico vizinho

às vezes no telefone pousado chamavam

com voz abafada pelo patrão: são «os dois paneleiros»

Embora sempre afável atendesse às avarias.


A voz voava do recanto de contabilidade

forrado a calendários com poses pneumáticas

por sobre tubos de escape, soldaduras, jactos, latões.

baterias, broquins, desperdícios, alavancas;

e a gordura negra, um filtro gasto, malsão.


Assim os conheciam por lá, quiçá por outros becos.

E ambas as designações os faziam sorrir.

Mas se fossem de repartição ou a prazo numa firma

Ou até doutra mecânica qualquer? Ou de pequena cidade?

Ou de grupo de jardim com reformados?


Trata-se, é claro, da inútil função social da poesia.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, pg 124 – 125, Contexto, Lisboa, 1987

Confrontation © cyril berthault-jacquier, Olhares, fotografia online

Confrontation © cyril berthault-jacquier, Olhares, fotografia online

(clique para ampliar)

Gavetas e armários
Paula Cruz


Quando alguém lê um romance onde um homem e uma mulher se envolvem em práticas amorosas, não o rotula ou categoriza no subgénero literário “ficção heterossexual”, nem faz juízos de valor sobre a orientação sexual do produtor da obra. No entanto, se numa dada obra temos uma alusão ou descrição de uma relação homossexual, essa obra, passa, quase de forma automática a ser inserida na literatura gay, ou mais modernamente, na literatura querer, uma estratégia terminológica politizada que nos permite ir um pouco mais além dos géneros sexuais tradicionalmente estabelecidos.
Certo é que a pseudo-heteronormalidade, a «elasticidade mortífera da presunção heterossexual» (Sedgwick, 2003:7), vai regendo a subcategorização dos géneros  literários, assim  obras produzidas ou por autores que assumam publicamente a sua orientação sexual  ou  cuja temática aluda a sensibilidades ditas minoritárias são categorizadas sob o amplo guarda-chuva terminológico de literatura gay , LGBT ou  queer.   O mais curioso é que qualquer forma de afirmação – seja de orientação sexual, política, ou outra – é, simultaneamente, um mecanismo de ocultação, pois para que se destaquem os caracteres que se desejam afirmar , os outros são silenciados. O facto de uma obra ser lida enquanto “lgbt”, faz com que todas as outras  questões abordadas, sejam menorizadas.
Ser posto na prateleira da literatura gay ou homossexual (distintas, segundo Eduardo Pitta)  ou feminina é uma forma de dar visibilidade, mas ao mesmo tempo, de criar um certo folclore à volta desses mesmos rótulos, assim como em tempos se fez com a literatura sul-americana ou como, presentemente, se está a fazer com o romance histórico (sempre embrulhado numa doirada capa com um qualquer pormenor de um quadro renascentista ou com uma imagem sépia a revivificar uma qualquer falsa memória colonial).
Claro que a questão da visibilidade social LGBT é importante, bem como é importante desfazer mitos em redor das homossexualidades, no entanto receio que os, por vezes,  escusos caminhos da edição promovam as obras  apenas como uma forma inocente de voyerismo e não pela sua qualidade intrínseca.  A meu ver, faz todo sentido falar-se em estudos queer e considero  urgente  reservar um  espaço nas estantes para este emergente campo de estudo. Já em questões literárias, parece-me lesivo (e abusivo)  fechar os autores em espartilhos que não os dos géneros dramático, narrativo e lírico.  A opção por rotular uma obra na literatura gay faz parte de um processo evolutivo: num primeiro momento há a consciencialização e a afirmação da diferença e, posteriormente, teremos o desejo de uma diferença não diferenciada. Nessa diferença a  dicotomia homossexual / heterossexual perderá o sentido. É o caminho da diferença não diferenciada que queremos que seja trilhado.
A obra ficcional de Frederico  Lourenço não pode ser  equiparada à de um Guilherme de Melo, por exemplo. O ser homossexual não autoriza a que sejam colocados numa mesma prateleira e num mesmo nível de qualidade. A questão heterossexual, homossexual, lésbica, transexual ou bissexual é  identitária, podendo ou  não transparecer para  a escrita, embora lhe esteja subjacente.  Frederico Lourenço é, no meu entender, um excelente escritor, que por acaso é homossexual. A trilogia iniciada por Pode um desejo imenso tem inquestionavelmente uma temática gay, mas é muito mais do que isso . Além dos aspectos literários, trata-se de uma ardilosa forma de defender uma tese, que encontraria resistências vigorosas no meio académico. Quando digo que Frederico Lourenço “por acaso é homossexual”, refiro-o como, a propósito de Mia Couto , digo que por acaso tem um pigmentação de pele mais nórdica, do que a tipicamente moçambicana. É óbvio que  todos os factores que  condicionam o autor textual são importantes, mas daí a tornar essas evidências em factos determinantes no seu emprateleiramento literário, parece-me francamente exagerado.  Para um  autor,  ser lido apenas por ter (ou melhor, assumir)  uma orientação sexual divergente da heteronormalidade asfixiante não é nem prestigiante, nem interessante. Se continuarmos a insistir em  rotular obras apenas por factos além da própria obra, como a orientação sexual  dos escritores, podemos chegar  a  extremos tão caricatos quanto etiquetar Miguel Torga e Jorge Sousa Braga  enquanto nos poetas que são médicos, sendo Sousa Braga inserido na subcategoria dos poetas ginecologistas. Vergílio Ferreira e David Mourão-Ferreira cabem na secção nos escritores que foram professores, sendo que Vergílio Ferreira pertence à sub-secção dos romancistas professores de Português, Latim e Grego do ensino Secundário. Vasco Graça Moura nos escritores que casaram mais de três vezes,  Manuel António Pina,  Ana Luísa Amaral e Adília Lopes nos escritores que gostam de gatos.  Esta especificação  seria, obviamente, ridícula, como o outro extremo também o é: em nenhum manual escolar a homossexualidade de Eugénio de Andrade é focada. Há aqui um “assobiar para o lado”, perdoe-se a expressão, apenas perceptível se enquadrarmos o poeta numa sociedade que apenas em 2004  tornou inconstitucional a discriminação com base na orientação sexual.  O “tu” dos poemas de Eugénio é lido nas selectas escolares sempre como um sujeito lírico feminino, não se abordando em parte alguma a questão do “outro” poder ser alguém do mesmo género sexual. O mais que acontece é esse “tu” ser lido como um referente neutro. Claro, que neste caso é o preconceito ancestral que domina as leituras oficiais. Sem nos alongarmos nas leituras mais ou menos  oficiais feitas pelos manuais escolares, não é só na questão da sexualidade que estes manifestam um carácter bafiento. A forma prática como os autores são seccionados em temáticas resulta numa forma dramática de circunscrever os autores a determinados topoi.
Uma das  vantagens efectivas  de os livros seguirem para as livrarias previamente etiquetados  é que, desta forma,  o trabalho dos livreiros é simplificado, assim,  nem sequer precisam conhecer o que vendem.  Se calhar  é por ausência de etiquetas que Breves Notas sobre Medo (2007)  de Gonçalo M. Tavares é muitas vezes  arrumado na secção de psicologia e Introdução à Filosofia  e Fenomenologia de Fernando Echevarria são serenamente acomodados entre tratados filosóficos.
É  caricato falar-se de literatura homoerótica quando falamos de escrita onde se tocam questões homossexuais, de pudicamente se falar em literatura feminina, quando muitas vezes a temática é de cariz lésbico e de se falar de literatura erótica quando se fala de literatura heterossexual, com pinceladas de sensualidade e/ou sexualidade entre homens e mulheres. Por que será que não se fala em literatura heteroerótica? Mais uma vez o peso da heteronormalidade, marketing ou simples distracção? E, ainda nesta linha, o que define a literatura dita gay: a orientação sexual do autor ou a temática da obra?
Falar em literatura feminina, em literatura regional, em literatura gay, literatura colonial ou pós-colonial, em literatura negra  é sempre uma forma  de categorizar e, de certa forma, engavetar. A necessidade de categorizar e de nomear é intrínseca ao ser humano e isso, por si só, não é necessariamente mau. Muitas vezes,  os rótulos são uma forma lícita  de dar visibilidade a determinadas questões sociais, no entanto,  esse mesmo rótulo pode tornar-se num duro espartilho que não deixa  que as obras respirem e sejam lidas no seu todo.  Assim como não considero que exista uma escrita feminina, também não  creio que seja relevante falar em literatura queer, gay, homossexual ou lgbt. Não é a escrita que está em causa: é o modo de ler. A etnia, a orientação sexual, o local de produção não definem, à partida, ou não deveriam definir, a qualidade da obra. A opção por, voluntariamente, enquadrar uma obra  sob determinada legenda – gay, homossexual, queer (aqui os termos são usados indistintamente) – reproduz exactamente a mesma ordem social inflexível e reguladora contra a qual se opõe. O sublinhado terminológico que embrulha obras de cariz tão diverso configura o mundo a partir   do binómio homossexual vs heterossexual.
O texto literário é sempre coberto de véus que criam verdades artificiais, ainda que de verdades se tratem, de facto. Estes véus constroem uma realidade simbólica que se afasta da realidade do autor empírico. Ainda assim, o texto revela marcas do seu tempo, do contexto de produção, do contexto sócio-cultural, de género e até da orientação sexual.  A interrogação sobre a importância destas marcas é importante, mas não pode ser condicionante,  transformando  o exercício da leitura numa obsidiante compilação de marcas do tempo, da biografia, da intimidade, da orientação sexual de quem o escreveu.
A literatura faz parte da vida, não lhe é marginal, logo a sexualidade está sempre presente, seja de forma mais ou menos explícita. O grau de conhecimento do leitor, os seus horizontes e a sua biblioteca cultural convivem com os textos. Em última instância, seria (ou deveria ser) o leitor a guardar cada obra na estante pessoalíssima das suas próprias leituras.
Se etiquetar algumas obras sob a sigla LGBT pode até, num primeiro momento ser  vantajoso, como forma de adquirir um lugar numa estante de uma livraria, no entanto a longo prazo  isso faz com que na obra apenas se perscrutem  traços biográficos e que os aspectos literários sejam relegados para planos muito secundários. A prateleira da “literatura gay” é apenas uma forma de fechar o armário ou, então, de transferir o armário para uma gaveta.  Neste ponto, é necessário radicalizar a questão:  a obra vale pelo que é ou pela orientação sexual do autor ?
Categorizar uma obra pela orientação sexual do autor empírico é ler a obra pelos óculos redutores da crítica biografista.  A vida  privada do autor só é (deve ser)  relevante para a sua esfera privada. Não tenho grandes dúvidas que se determinados autores publicassem as suas obras sob outras etiquetas, o sucesso editorial seria diverso. Arrisco dizer que Paulo Kellerman, autor de Gastar as Palavras (2006) e os Mundos Separados que Partilhamos (2007)  seria, se assinasse como Paula Kellerman,  etiquetado, com alguma facilidade , numa escrita dita feminina.
Os bons livros seguramente deixarão os espartilhos das prateleiras  e afirmar-se-ão  pela sua qualidade, sendo, quando muito integrados nos géneros maiores: lírico, narrativo e dramático. Os outros prestam-se ao folclore.

Bibliografia:
Pitta, Eduardo (2003) Fractura, a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea, Angelus Novus, Coimbra
Sedgwick, Eve Kosofsky, trad. Ana Luís e Fernando Oliveira,  (2003) Epistemologia do Armário, Angelus Novus, Coimbra
Carneiro, Nuno Santos e Isabel Menezes, (2006) “Do anel à aliança”: Sentido dos iguais e emancipação pessoal na psicologia das sexualidades” (pp.73-79) in Revista Crítica de Ciências Sociais, 76

¹Note-se que é desajustado falar em literatura gay (ou homossexual, ou queer, ou outra coisas qualquer) uma vez que  a literatura, em si mesma, não é um género literário. Os géneros literários maiores são o dramático, lírico e narrativo, logo, seria preferível falar em “narrativa gay”, “poesia gay” e “teatro gay”.

²O caso de Mia Couto serve ainda de exemplo para uma ambiguidade criada pelo seu próprio nome. Mia é um diminutivo de Emílio, mas muitas vezes, os leitores estão em crer que Mia é nome de mulher e que o autor do texto é, portanto, uma mulher. Conta-se aliás o equívoco  a que foi sujeito numa visita diplomática a Cuba, em que  os assessores de Fidel Castro o presentearam com artigos femininos, dado que, pelo seu nome, esperavam uma mulher. Aliás, o próprio Mia Couto refere que normalmente aguardam uma mulher negra. O condicionamento da leitura começa aí.

³Neste ponto, é curioso observar que Ary dos Santos, poeta, comunista rejeitado pelo partido pela sua orientação sexual, é mais depressa lido de um ponto de vista hermenêutico sob uma perspectiva politica, do que sexual.

publicado no Primeiro de Janeiro, suplemento Das Artes e das Letras.